As rainhas não eram bonecas de tafetá: o poder também foi seu campo de batalha

Em Rainhas infiéis, Carmen Gallardo revisa quase oito séculos de história para desmontar mitos, questionar lendas negras e analisar como o poder feminino tem sido narrado —e castigado— a partir de parâmetros patriarcais. Jornalista e divulgadora histórica, reivindica essas mulheres como figuras políticas complexas, muitas vezes desacreditadas por sua moral antes do que por suas decisões. “O sistema sempre encontra desculpas para se sair ileso”, sustenta.

Rainhas infiéis analisa o poder sob uma perspectiva histórica e de gênero. Por que acredita que ainda é necessário revisar hoje como o poder feminino foi exercido e narrado? As rainhas ainda são vistas como meras portadoras de magníficas tiaras ou belos designs, ignorando que nas monarquias constitucionais ou parlamentares europeias estão vinculadas à chefia de estado. A figura das rainhas me interessa porque elas foram durante séculos a única presença de mulheres no poder. Além disso, hoje em dia, apesar dos avanços legais, as reivindicações feministas continuam sendo necessárias.

Você vem do jornalismo e da divulgação histórica. Como essa perspectiva profissional influenciou a forma de construir essas biografias? Talvez o mais destacado seja a necessidade de verificar os dados, tarefa à qual dediquei muitas horas, pois nem todas as fontes coincidem em fatos ou datas ou até mesmo trajetórias, e é essencial conciliar todas as informações. O livro é fruto de muitas leituras e análises.

Ao longo de sua carreira você escreveu sobre mulheres, poder e monarquia. O que a levou, precisamente agora, a reunir essas doze histórias em um único livro? Neste momento está sendo recuperada a biografia de muitas mulheres que permaneceram ocultas na história da literatura ou da ciência, ou da cultura em geral. As rainhas também estiveram ocultas. Apenas algumas delas saltaram às páginas da história. Em muitos casos, ao lado de seu nome, cresceu uma lenda negra que nem sempre foi comprovada. Em Rainhas Infiéis eu queria resgatar algumas delas, que saíssem do anonimato ou serem recuperadas sob outra perspectiva, pois suas biografias merecem; ou a dor e as humilhações sofridas também devem ser contadas. As rainhas não são apenas bonecas vestidas de tafetá.

O livro percorre quase oito séculos de história. Quais padrões de poder lhe pareceram mais persistentes ao comparar contextos tão distintos? Há dois que se destacam: o poder patriarcal e, derivado, a desqualificação moral das mulheres independente de seu rango real. Urraca I morre em 1126; a rainha Paola ainda está viva. Ambas são vítimas desse padrão. Como o resto. A exceção é Catarina, a Grande, uma rainha que não se encaixa exatamente com as demais. O que a distingue? Ela age como um homem, que concebe o poder e seus amantes como sempre fizeram os homens.

Ao ler Rainhas Infiéis, é difícil não pensar em mulheres que hoje lideram empresas ou instituições. Você acredita que muitas empresárias e políticas atuais enfrentam, salvando as distâncias, pressões similares às suportadas por essas rainhas? Acredito que não. Embora ainda ouçamos histórias de pressão e assédio, que parecem estar na ordem do dia, hoje as mulheres têm ferramentas legais de defesa, impensáveis em épocas passadas. Isso não significa que as atitudes e concepções machistas não sigam latentes na sociedade atual.

“Atacavam a moral sexual. E esse tem sido um pecado maior do que o próprio assassinato, a conspiração ou roubar um trono legítimo.”

Ao longo do livro aparecem mulheres com caráter forte, ambiciosas, estratégicas, pouco dóceis. Até que ponto esse caráter foi uma ferramenta de sobrevivência e até que ponto voltou-se contra elas? Sim. O comportamento de Isabel de França, rainha da Inglaterra, foi pura sobrevivência, assim como o de Urraca I. A história não as perdoou, o caso mais claro, insisto, é o de Isabel de França, a “loba”, a quem a literatura marcou como mulher fatal e despiadada. Se o foi, era produto de um dos momentos mais sangrentos da história, mas ela carrega o sobrenome de “loba” por séculos. Sem dúvida, os casamentos arranjados provocavam situações difíceis: penso em Maria Luísa de Bourbon-Parma, ansiosa por desfrutar da vida e casada com um tipo como Carlos IV, que era muito sem graça. Sem esquecer que eram moças que eram retiradas de seu ambiente e tinham que se adaptar a mundos que estavam nas antípodas daquele em que cresceram.

No livro, o caráter firme aparece frequentemente como motivo de castigo ou descrédito. Você acredita que essas mesmas características, vistas hoje como liderança nos homens, continuam sendo julgadas de forma diferente quando são encarnadas por uma mulher? É uma ferramenta eficaz para deslocar a responsabilidade do sistema para as pessoas? A firmeza de caráter é o que define algumas das protagonistas do livro, embora suas estratégias difiram. A maneira como se julgava homens e mulheres era bem diferente. E ninguém responsabilizava o sistema, a acusação tem nome e sobrenome, o sistema sempre encontra desculpas para sair ileso.

“As rainhas não são apenas bonecas vestidas de tafetá.”

A chamada “lenda negra” atravessa várias dessas biografias. Por que você acredita que tem sido um instrumento tão eficaz para desacreditar mulheres no poder? Porque atacavam a moral sexual. E esse tem sido um pecado maior do que o próprio assassinato, a conspiração ou roubar um trono legítimo. É curioso que importasse mais a moral das mulheres do que o fato de que um homem mais velho pudesse se casar com uma menina que mal havia chegado à puberdade e da qual dependia em todos os aspectos de sua vida. Essa fragilidade não foi considerada. A igreja, sem ir mais longe, punia a consanguinidade dos cônjuges, mas não a situação de vulnerabilidade dessas jovens.

Isabel II é um dos retratos mais duros do livro. O que acha que ainda não compreendemos sobre ela como rainha e como mulher?

Que bom que fez essa leitura! Ela continua sendo vítima da sua lenda negra: a opinião pública continua a pensar na rainha ninfomaníaca sem olhar além, sem contextualizar a personagem, protagonista de um reinado com muitas sombras. Ainda é fácil ouvir em Madrid supostos guias turísticos a zombarem da sua estátua. Existem muitos livros e documentação sobre a rainha; eu revisei muitos textos, mas, sem dúvida, fico com duas visões, as mais objetivas e respeitosas com a rainha. A biografia de Isabel II da historiadora Isabel Burdiel, sem dúvida a melhor sobre o período isabelino, e a visão humana de Benito Pérez Galdós, o único que a entrevistou, testemunha da época e que soube escrever a partir do humanismo que emana toda a obra do autor.

Várias protagonistas se destacam por sua formação intelectual e curiosidade cultural. Até que ponto a educação foi para elas um espaço de liberdade ou de resistência?

Sim, Margarida de Valois era uma mulher culta, mas também a lenda negra, o perfil frívolo de Dumas impregnou a personagem. Isabel de Bourbon-Parma denunciava nos seus escritos a sua condenação por ter nascido princesa, a obrigação de dar à luz sem o desejar e de os políticos a casarem com alguém que ela não conhecia. No entanto, ela não se rebelou, refugiou-se na pena e morreu muito jovem. Paola, tantos séculos depois, também se rendeu. Liderar uma revolução ao lado de seu amado libertou por alguns anos a jovem rainha dinamarquesa Matilde. E outras perderam irremediavelmente, até mesmo o destino jogou contra elas: é o caso da rainha de Castela Juana de Avís e de sua filha, princesa das Astúrias, Juana de Trastámara, a quem a história condenou a ser chamada pejorativamente de “la Beltraneja”.

“O SISTEMA SEMPRE ENCONTRA DESCULPAS PARA SAIR ILESO.”

Depois de escrever este livro, mudou a sua forma de ver as mulheres que hoje ocupam posições de poder ou visibilidade pública?

Não, estou ciente do preço que pagam as mulheres que optam pela liderança na política ou no mundo do trabalho. E talvez, para se defenderem, sejam demasiados os casos em que essa liderança é exercida a partir de valores tradicionalmente masculinos. A minha dúvida é se o exercício do poder é possível de outra forma. A verdade é que a maioria tem de fazer muitas renúncias na sua vida pessoal e familiar.

Para leitores e leitoras jovens interessados em história, jornalismo ou escrita, que conselho lhes daria na hora de olhar para o passado com um olhar crítico e próprio?

A investigação. Que respeitem as fontes, que procurem as mais fiáveis, profissionais sólidos, que perguntem a quem sabe, que estudem, que sejam pacientes com a leitura e a reflexão.

Para jovens jornalistas que hoje querem analisar o poder e a liderança com um olhar crítico, que conselho profissional lhes daria na hora de investigar e contar essas histórias?

Diria aos jornalistas que busquem especialização na matéria que lhes interessa. Que não se deixem levar pelos cantos de sereia do populismo jornalístico. Que observem as personagens como seres humanos no seu contexto. Que evitem se deslumbrar com as aparências. E, especialmente, que consultem especialistas na matéria, que geralmente são pessoas humildes e dispostas a ensinar.

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