O novo Huerva: 2,5 km de beira para todos os ritmos de vida

Durante anos, o Huerva foi um rio oculto. Encalçado entre muros, pontes e asfalto, atravessava Zaragoza quase em silêncio. Muitos o cruzavam diariamente sem vê-lo. Outros mal sabiam que ele estava ali.

No pleno século XXI, as cidades são algo mais do que urbes, ambientes urbanos, cities ou cidades. Zaragoza, a cidade que superou a barreira dos 800.000 habitantes e ocupa a quinta posição em volume populacional, está redescobrindo o Huerva, o rio que sempre escondeu sob o asfalto, pontes e blocos de apartamentos.

A recuperação do rio Huerva conta com um investimento destinado de 31,9 milhões de euros para transformar 2,5 quilômetros de leito degradado em um importante eixo de natureza urbana. O Projeto de Regeneração do Rio Huerva, financiado com fundos europeus NextGenerationEU através do Plano de Recuperação, Transformação e Resiliência (PRTR), projeta transformar um leito encalçado e contaminado no que descrevem como «o maior projeto europeu de integração urbana de uma margem fluvial sob uma visão multidisciplinar».

O Projeto Rio Huerva conta com o apoio do MITECO.

Um corredor verde no coração da cidade

Além de plantar árvores e habilitar trilhas, o projeto reflete a construção de um corredor verde: uma artéria viva que conecte parques, bairros e ecossistemas, favorecendo o movimento de fauna e flora, e oferecendo aos zaragozanos uma rota contínua de natureza no interior da cidade.

Os especialistas detalham que, na ecologia urbana contemporânea, os corredores verdes «são muito mais do que áreas arborizadas. São infraestruturas ecológicas que rompem o isolamento do asfalto, facilitam o fluxo genético entre espécies e reduzem o efeito de ilha de calor».

O que o rio perdeu e o que recupera

O diagnóstico inicial era grave. O leito do Huerva na sua passagem por Zaragoza tinha sido submetido a um processo de degradação sistemática. A intervenção projetada incide nesses aspectos: são retiradas estruturas de concreto, o leito é alargado para reduzir inundações, é construído um tanque de tempestade e são eliminadas as espécies invasoras para substituí-las por vegetação nativa.

Duas fases sem marcha-atrás

O projeto é executado em duas fases. A primeira centrou-se nas ações de base (limpeza, desmatamento, abertura de acessos) para preparar o terreno. A segunda fase, com horizonte de finalização em 2026, inclui a criação de parques fluviais, o plantio de 190.000 unidades vegetais, e a habilitação de trilhas para pedestres e ciclistas.

Oito parques, oito personalidades

O projeto prevê cinco novos parques na primeira parte do rio, que somam 12.400 metros quadrados de área, e a renovação de outros três na segunda parte. Cada parque tem sua própria lógica e design, como o Sopesens que mistura infraestrutura e natureza, e o Catalina Salazar, voltado especialmente para a infância.

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Um rio e uma declaração de intenções

Para além dos metros quadrados e dos milhões de euros, o Projeto Rio Huerva tem uma dimensão simbólica que os seus promotores insistem em destacar. «Recuperar um rio é recuperar uma ideia de cidade», afirmam. «Uma cidade que entende o espaço público como infraestrutura de bem-estar. Que prioriza a saúde, a convivência e a sustentabilidade em detrimento do carro e do betão. Que pensa nas gerações que virão em 2045, não na foto do presente», nas palavras da presidente da Câmara, Natalia Chueca.

É também, em termos práticos, uma aposta na habitabilidade num momento em que Saragoça se prepara para um crescimento demográfico e económico significativo. Os grandes investimentos tecnológicos anunciados na cidade — mais de 40 mil milhões de euros em centros de dados e inteligência artificial — trarão pessoas. E as pessoas que escolhem onde viver procuram, cada vez mais, a qualidade do espaço público, a presença da natureza, a possibilidade de se deslocarem a pé ou de bicicleta.

O Huerva, aquele rio que esteve prestes a desaparecer sob o cimento, leva o nome das suas águas. Ur, raiz basca que significa água, de onde provavelmente vem o seu nome. Água que volta a pertencer à cidade.

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