P. Como nasceu o Teatro de las Esquinas e o que os atraiu para o projeto?
R. Chegamos por uma oportunidade e por uma necessidade compartilhada entre o Teatro Che e Moche e o Teatro del Temple. Estávamos trabalhando juntas na Associação de Artes Cênicas, o mercado cultural estava mudando e entendemos que queríamos um espaço próprio, um lugar que pudéssemos gerenciar diretamente para o público, sem intermediários. O Teatro de las Esquinas se apresentou como uma ocasião única: um espaço municipal que havia ficado inacabado após a crise e que foi oferecido em concurso público. Nos apresentamos com um projeto de gestão mista, o preparamos durante um ano e decidimos investir fortemente nele.
P. Uma aposta que exigia muita coragem. Como começou e se sustentou economicamente?
R. Com muito esforço e com um financiamento muito difícil. Era uma época de crise, os bancos não ofereciam nada e havia muito pouca confiança nos projetos culturais. Apesar disso, colocamos todo o nosso patrimônio e levantamos o teatro com um investimento muito grande. Foram anos muito difíceis, mas tínhamos claro que não estávamos montando um negócio qualquer, e sim um serviço cultural para a cidade.
P. Que visão vocês tinham então do teatro que queriam construir?
R. Tínhamos claro o que não queríamos: intermediários que nos separassem do público, falta de autonomia e um espaço que não respondesse às necessidades reais das companhias e dos espectadores. Queríamos um teatro vivo, flexível, com arquibancada retrátil, capaz de se transformar também em sala de concertos. A ideia era que o conteúdo artístico e a relação com o público fossem o central.
P. O que você aprendeu como programadora a partir da sua trajetória anterior como atriz nos palcos?
R. Muito. Ter trabalhado como companhia teatral e ter pisado em tantos espaços te dá uma visão muito concreta sobre o técnico, o artístico e o humano. Você sabe o que funciona, o que uma produção precisa e como se vive de dentro uma turnê ou uma apresentação. Isso me ajuda a programar a partir da empatia e também da experiência real, não da teoria.
P. Como você definiria a linha de programação do Teatro de las Esquinas?
R. Somos muito ecléticos. Programamos para muitos gostos diferentes e acreditamos que sempre deve haver algo que você queira ver. Apostamos em teatro comercial bem feito, mas também em propostas transgressoras, teatro social, político, inclusivo e ciclos muito concretos que nos permitem arriscar. Gostamos que o público descubra coisas novas sem deixar de cuidar da sustentabilidade do projeto.
«O teatro comercial preenche, mas o mais arriscado é o que transforma»
P. Que tipo de espetáculos funcionam melhor?
R. A comédia. As pessoas buscam desconectar, rir, esquecer o dia a dia. O teatro, rir ao vivo, também é terapêutico. Funciona porque conecta e porque as pessoas saem do teatro com uma sensação de alívio e de prazer. Isso não significa renunciar a propostas mais profundas, mas sim entender que o público também busca passar um bom tempo, desconectar e viver uma experiência agradável.
P. Vocês criaram ciclos com um enfoque marcadamente feminino. Qual é o objetivo deles?
R. Sim, com ciclos como “Mulheres em cena”, queremos dar espaço à autoria, direção, coreografia ou música criadas por mulheres. Existem muitas criadoras, mas ainda é mais difícil produzir seus espetáculos e vendê-los depois. Continua havendo um teto de vidro e acreditamos que é necessário fazer discriminação positiva enquanto essa desigualdade existir. Espero que algum dia não seja necessário, mas hoje ainda é.
«A programação das esquinas é eclética: teatro comercial, propostas arriscadas, ciclos de autoria feminina e uma aposta clara pela música e pela comédia»
P. Que peso tem o apoio institucional em um projeto como o Teatro de las Esquinas?
R. Deveria ser fundamental, porque a cultura é um serviço público e um patrimônio que deve ser protegido. Gostaríamos de ter mais apoio, tanto em Aragão quanto em nível geral, porque o investimento cultural continua sendo baixo. Se realmente se diz que a cultura importa, isso deve se refletir no orçamento e nos recursos humanos destinados. Em Aragão, o investimento é baixo, e isso se nota. Há talento, mas faltam recursos.
P. Como é o público zaragozano? Continua sendo uma «cidade de provas»?
R. É um público exigente e muito imprevisível. Existem coisas que funcionam imediatamente e outras muito boas que não decolam. Mas também vemos que, quando uma proposta é bem comunicada e conecta, a resposta é excelente. É muito complicado antecipar isso. Zaragoza tem uma oferta cultural amplíssima e as pessoas respondem, embora o hábito de ir ao teatro ainda precise ser desenvolvido.
«A cultura não é um negócio comum, é um serviço público que precisa de mais apoio institucional e mais orçamento em Aragão»
P. Esse hábito mudou após a pandemia?
R. No início, sim, houve uma reação muito forte. As pessoas estavam muito ansiosas para se reencontrar ao vivo e os teatros responderam muito bem. Depois, houve altos e baixos, mas a música e os concertos mantiveram uma força enorme. Eu acho que o ao vivo continua tendo uma potência brutal e que as pessoas cada vez mais valorizam essa experiência.
P. Como vocês convivem com a digitalização?
R. Principalmente na gestão. Usamos ferramentas para analisar dados, estudar vendas, melhorar o ticketing e avaliar melhor o que fazemos. Isso nos permite ser mais ágeis e mais precisos. No palco também existem recursos digitais que enriquecem, mas o centro continua sendo o ator, a verdade do que está acontecendo no palco.
P. Que lugar ocupa o Teatro de las Esquinas na vida cultural de Zaragoza?
R. Acredito que muito importante. Contribuímos para ampliar a oferta de lazer cultural, de música, de pedagogia e de formação teatral. E também mudamos a forma de nos relacionarmos com o público, apostando desde o início em uma relação muito próxima, sabendo quem compra, o que lhe interessa e como se sente ao vir ao teatro. Isso nos ajudou a construir uma comunidade real. Ir ao teatro não é apenas ver uma obra, é a experiência completa, é viver algo.
P. Depois de mais de uma década, que balanço você faz?
R. Muito positivo. Construímos algo importante em um contexto difícil. Mas seguimos sendo frágeis: a cultura sempre o é. Por isso, a luta é diária.
P. E a nível pessoal? Você sente falta de estar no palco e atuar?
R. Continuo sendo atriz, embora agora seja o que menos faço. Mas o teatro continua sendo minha paixão. É um lugar onde ainda acontecem coisas que te reconcilia com o ser humano.
P. Como vocês se definem em uma frase? O que define o espírito do Teatro de las Esquinas?
R. A “rasmia”. Energia, caráter, capacidade de trabalho. Somos sete sócios muito diferentes, mas nos complementamos com respeito e um objetivo comum. Somos um teatro com rasmia: na










