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8 febrero 2026

Ser uma boa pessoa é uma atitude de coragem, você assume o risco de confiar em quem pode te decepcionar.

Patricia Ramirez, mais conhecida como @patripsicologa, e Perico Herraiz (@pericoherraiz), se propuseram a redefinir o que é ser bom e o resultado é este livro conto ilustrado: Sou uma boa pessoa. Estruturado em 12 meses, 12 valores, os autores refletem nesta entrevista sobre a educação como forma de mudar o mundo, a necessidade de diferenciar bondade de obediência ou fraqueza, a síndrome da vida ocupada, a falta de tempo e reflexão de muitos de nós, ou a agressividade e ira de alguns nas redes sociais.

Conhecida em toda a Espanha por suas atividades como divulgadora, psicóloga, escritora e conferencista, @patropsicologa continua reinventando formas de difundir a psicologia: da consulta à rádio, oficinas, conferências, livros, clubes online e, recentemente, no teatro. Perico Herraiz acumula anos de experiência nas áreas da educação e do voluntariado internacional.

Coragem, generosidade, amor, compaixão, esforço, justiça, respeito, gratidão, paciência, perdão e bondade. 12 valores que Patricia Ramirez e Perico Herraiz selecionaram cuidadosamente para compor um livro conto ilustrado, com atividades semanais e voltado para ser lido em família, entre filhos, pais e educadores. A mais de um adulto faria muito bem ler e aplicar em suas vidas, comentam ambos entre risos.

Ambos pensamos que a educação é a melhor forma de mudar o mundo. Imagine, tentar mudar adultos agora é complicado. Cada um tem suas manias, seus hábitos ou suas dinâmicas negativas. Se você trabalha com crianças, é muito mais fácil criar ou educar em valores e criar hábitos. Este não é um livro para que as crianças leiam sozinhas, mas sim com seus pais e com seus professores; podem ser geradas boas conversas, dinâmicas muito boas com os exercícios que propusemos, reflexões entre os pais e filhos ou até mesmo entre professores e alunos.

Escolhemos os 12 valores que consideramos -destacam Patricia e Perico- mais vinculados à busca dessa bondade: a generosidade, o valor do amor, a compaixão, a justiça… Todos, buscando que haja uma atitude relacionada a ser uma boa pessoa. Valores que os jovens podem trabalhar com os pais e com os professores.

O que é ser uma boa pessoa?

PATRICIA .- Ser uma boa pessoa é uma atitude de coragem, na qual você assume o risco de confiar nas pessoas, mesmo nas que podem te decepcionar. Acredito que vale a pena correr o risco, porque há muitas pessoas que, após um fracasso em um relacionamento amoroso, ou em relação a outras pessoas, ou quando um sócio a nível profissional falha, se dizem a si mesmas: “isso não me acontece mais!”, e aí surge a carapaça, que te protege de muitas pessoas que podem te ferir, mas também te afasta ou te impede de conhecer pessoas maravilhosas.

“A educação é a melhor forma que conhecemos para mudar o mundo”

Considerar alguém bom estava muito próximo de defini-lo como fraco e até mesmo tolo. A bondade não tem muita boa fama, digamos.

PATRICIA .- Herdamos um modelo empresarial americano completamente equivocado, baseado na competitividade absoluta, onde tudo vale, e no individualismo. E nesse sonho americano de aspirar a quanto mais bens materiais, melhor. Para conseguir isso, você não pode ter muitos valores.

PERICO .- É verdade que existiu uma relação entre ser bom, ser fraco e ser fácil. No livro, refletimos que se você quer ser realmente bom, precisa de esforço, coragem, valentia, que são virtudes de uma pessoa forte, precisamente, nada frágil.

Não se conhece muito bem o termo ser bom. Quando você é pai ou mãe, o que realmente deseja para seu filho? Que ele seja uma boa pessoa, que seja capaz de estabelecer relações saudáveis, que tenha uma maneira de pensar positiva, que não seja conflituoso, tóxico, e para isso você precisa ser uma boa pessoa, para isso você precisa trabalhar em si mesmo, ter autocontrole e não são valores precisamente de uma pessoa fraca.

Ser bom é fazer coisas boas? É uma abordagem simplista? Sendo bom, você perde?

PA: Algo importante é que ser uma boa pessoa não é aquela pessoa que não faz o mal, mas a que intencionalmente faz o bem. Que você vá pensando em como se relaciona com os outros, com o trabalho e consigo mesmo, promovendo o bem. E acho também que precisaríamos dissociar entre ser bons e ser obedientes, porque às vezes educamos em uma obediência absoluta e transformamos nossos filhos em pessoas servís, que aprendem a se sentir amados quando fazem o bem que você lhes impõe. Depois, transferem essas dinâmicas para seus amigos e, para não perdê-los, se deixam pressionar com comportamentos que às vezes já não são tão positivos. De modo a não decepcionar, eu tenho que continuar sendo obediente e bom. mas não sei se “bom” é o que estamos falando, mas sim aquele que semeia a semente da bondade, que ajuda os outros, sem esperar recompensa.

“Ser uma boa pessoa não é aquela pessoa que não faz o mal, mas a que intencionalmente faz o bem”

PE: “Em um caso de bullying, por exemplo, em uma escola, no ensino fundamental. Seu filho não sofre diretamente o assédio, mas está no grupo de crianças. O que você faz? Se você é uma boa pessoa, age, defende o fraco, e muito poucas pessoas fazem isso. Essa é a coragem que definimos como um valor essencial e básico para ser uma boa pessoa.

O sucesso está em conflito com a bondade?

PERICO .- É o conceito com o qual você se levanta e se deita, mas faz com que você se meta em confusões. O conceito de bom ao qual se referia Patri, ao aludir à mentalidade americana, às vezes está em conflito com o sucesso. Uma moça escreveu isso no Amazon ou Instagram, depois de comprar nosso livro, e nos disse que a educaram para o sucesso, o sucesso, e ela mesma decidiu parar: “já basta, agora eu tenho que educar meus filhos para serem boas pessoas!”. Se ser bom me leva ao sucesso, ótimo, mas se não me leva ao sucesso, eu deixo de lado. É uma visão utilitarista.

Vivemos acelerados, atropelados, buscando sobressair. Como estamos em saúde mental como sociedade?

PATRICIA.- Estamos dentro de um estilo de vida que gera uma agressividade que vemos hoje em dia nas redes sociais. Se a maioria da população passa o dia correndo, de um lado para o outro, não tem tempo para pensar, e pensar é muito importante. Se você não tem tempo para pensar, também não tem tempo para ter calma, para refletir, para tomar decisões corretas porque tudo é feito correndo… esse estilo de vida gera muita agressividade e muita ira.

Quais são as consequências?

PATRICIA.- Nossas emoções também precisam de descanso, nossa cabeça precisa de descanso, se não darmos a nutrição que precisam – fazer exercício, dormir uma sesta, ter um momento para respirar, descansar 15 minutos para que a cabeça se recupere… – o normal é que você passe o dia todo com os nervos à flor da pele.

“O estilo de vida atual gera a agressividade e ira que vemos hoje nas redes sociais”

O que você acha que se deve tanto insulto gratuito nas redes sociais?

PATRICIA .- As redes sociais permitiram que todos os egos que antes estavam escondidos viessem à tona. Mas as redes têm esse lado invisível e muitas pessoas aproveitam para desabafar tudo. E depois há o grupo dos «ofendiditos»; eles leem um comentário com pinças, tiram-no do contexto e deixam a sua marca. Se usas uma linguagem inclusiva e falas sobre mulheres, perguntam-te porque não incluí os homens. Há sempre algo para criticar, as pessoas não sabem deixar as coisas passarem, não têm esse lado compassivo, essa reflexão de pensar que a pessoa que sigo nas redes sociais me nutre de muitas maneiras e me oferece todos os dias conteúdo gratuito sobre psicologia, saúde ou decoração. E se um dia eu não concordar ou não gostar do que publicam, deixem passar! Isso é ser boa pessoa. Mas não, eles têm que mostrar que não concordam e muitas vezes expressam a sua opinião sem ter visto o vídeo inteiro.

PERICO .- Uma das atividades que temos no livro é ser repórteres de boas notícias. Estamos convencidos de que é muito importante educar o olhar, mas primeiro os pais têm que reeducá-lo. É importante ter esse olhar de criança. As conversas dos pais das crianças provavelmente também beneficiarão os professores e os próprios pais, porque nós, no final, acumulamos feridas, coisas negativas, experiências que as crianças não têm. A maioria das pessoas que está nas redes sociais não ataca, não insulta, a maioria das pessoas é incrível. E também é importante ter esse olhar de criança.

 

Como psicóloga, como se treina a mente?

PA .- Treinar a mente é aprender a falar consigo mesmo de uma determinada maneira, porque a maioria das pessoas se sabota, se maltrata e, quando fala consigo mesma, está sempre a criticar-se. Temos que aprender a falar conosco de uma maneira respeitosa e amorosa, como se estivéssemos falando com uma amiga. Se falássemos com uma amiga como falamos conosco, perderíamos essa amiga.

“A maioria da população passa o dia correndo, de um lado para outro, sem tempo para pensar. E pensar é muito importante. É preciso saber parar e refletir.”

E por que falamos tão mal conosco?

PA .- Fomos educados com castigos. E isso é um erro. Quando fazemos algo errado, castigamo-nos, mas não existe um único estudo científico em psicologia que demonstre que o castigo serve para alguma coisa. As consequências de fazer algo errado servem para tentar reparar e fazer da maneira correta. Se uma criança chumba na escola e os pais a castigam sem telemóvel, o que conseguem é fazer a criança sentir-se mal, sem saber se o motivo da reprovação é o telemóvel, um problema de concentração ou que não sabe organizar-se.

O castigo tende sempre a fazer a pessoa sentir-se mal, pensando que assim ela vai refletir, mas não é assim. O perdão, o perdão, as pessoas têm dificuldade em perdoar.

«Treinar a mente é aprender a falar consigo mesmo de uma determinada maneira, porque a maioria das pessoas se sabota, se maltrata. É aprender a falar connosco de uma maneira respeitosa e amorosa».

A maldade existe?

PA .- Sem dúvida. A psicopatia é uma realidade, e não só se tornam assassinos, eh?, afeta pessoas que podem estar ao nosso lado, sem qualquer empatia. É claro que existem muitas variáveis, mas vai desde aquele que enfia a mão numa caixa, rouba, e não se importa com outro tipo de atos. Essa incapacidade de reconhecer que fizeram o mal, porque não o veem assim, colocando-se acima do bem, não é uma doença. Outra coisa são as patologias que derivam em problemas de saúde mental.

PE.- O que temos observado há muitos anos é que perfis conflituosos, rodeados de ambientes hostis, reagem muito bem quando se pode intervir educativamente e reconhecer o seu valor. O voluntariado, neste sentido, desempenha um papel muito positivo.

Podemos melhorar a nossa vida e a nós mesmos? Como paramos, como podemos dar os primeiros passos?

PA.- O que as pessoas não têm é tempo. Muitas das pessoas que vêm aos nossos workshops e lêem os nossos livros, depois dizem-nos: «Bem, e agora como faço isso?». Eu penso: «Mas você tem isso aqui, acabei de lhe contar, só tem que fazer, aplicar». A verdade é que a maioria quer tudo mastigado e acaba acumulando muita teoria na cabeça, mas continua fazendo as coisas erradas.

Para parar e refletir, é preciso abrir mão de coisas, é preciso escolher. E estamos numa sociedade em que as pessoas não querem abrir mão de nada, porque além disso temos uma vitrine contínua nas redes sociais, oferecendo-nos «as cinco escapadas que não pode perder em 2025», ou os três cafés veganos que tem de visitar, etc.

É preciso encontrar um equilíbrio, estar no mundo sem se isolar, mas sem enlouquecer. No meu caso, tento fazer muitas renúncias, e cada vez mais, de acordo com a minha escala de valores, que é o que define claramente as minhas prioridades.

Qual é a última «aventura» da @patripsicologa?

PA.- Pensando em outras formas de divulgar, conversei com uma colega e as duas pensamos: ei, como podemos mudar um pouco a forma como nós, psicólogos, divulgamos? Optámos por tentar dramatizar uma conferência e tudo começou por aí. Falámos com um diretor de teatro, ele dramatizou uma palestra e, a partir daí, passei a trabalhar com ele e surgiu a peça «A ansiedade não mata, mas cansa», uma comédia em que há um personagem ansioso e uma psicóloga que lhe dá recomendações ao longo da peça para tratar a sua ansiedade. Transformámos todas essas ferramentas psicológicas em comédia, dando-lhes um fio condutor e, a partir daí, surgiram outras: uma sobre relações de casal, outra sobre crianças, etc. Estou muito interessado em procurar diferentes formas de divulgar a psicologia.

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