Orient-Express de Mauricio Wiesenthal: uma homenagem nostálgica à melhor Europa

No pleno verão, quando o calor convida à preguiça e ao devaneio, poucos prazeres superam o de embarcar em uma viagem sem sair do sofá. Mauricio Wiesenthal nos oferece precisamente isso em Orient-Express. O trem da Europa, um livro que não apenas narra a história de um trem lendário, mas que reconstrói com maestria a alma de uma Europa que quase só existe na memória e nas páginas bem escritas.

Publicado pela Editorial Acantilado em 2020, este volume de 384 páginas é uma joia de edição: elegante, sóbria e cuidadosa, como se espera de uma editora que defende a beleza do objeto livro. A capa, com sua fotografia evocativa, já sugere o glamour e a nostalgia que permeiam suas páginas. É um livro para ler devagar, quase como quem contempla a paisagem pela janela de um vagão de luxo.

O autor: um testemunho de exceção

Mauricio Wiesenthal (Barcelona, 1943) é um dos últimos grandes humanistas europeus do nosso país. Escritor, ensaísta, conferencista e antigo professor de História da Cultura, sua obra se inscreve na melhor tradição centroeuropeia. De ascendência alemã, viajante incansável e profundo conhecedor da cultura europeia, Wiesenthal já tinha publicado em 1979 A belle époque do Orient Express, mas este volume de 2020 é uma obra mais madura, ambiciosa e pessoal: um mosaico de história, memória, anedotas e reflexão.

Wiesenthal não é um historiador comum. É um narrador que viveu e respirou essa Europa culta, cosmopolita e melancólica que descreve. Sua prosa, envolvente, fragrante e precisa, destila erudição sem pedantismo e nostalgia sem pieguice.

O livro: uma viagem pela Europa que fomos

Orient-Express conta a história do trem que, desde 1883, uniu Paris a Istambul, tornando-se símbolo de uma Europa unida pela cultura, pelo comércio e pelo prazer de viajar. Através de seus vagões passaram reis e espiões, aristocratas e aventureiros, escritores e artistas, amantes e fugitivos. Wiesenthal reconstrói suas estações, suas paisagens, seus odores, seus menus e, sobretudo, seus personagens.

O livro é um delicioso híbrido entre ensaio, crônica e memórias. Não segue uma ordem estritamente cronológica, mas avança como o próprio trem: com paradas, lembranças que afloram, anedotas brilhantes e digressões cultíssimas. Em suas páginas encontramos Agatha Christie e Mata Hari, reis destronados e diplomatas discretos, cozinheiros lendários e maquinistas anônimos. Mas a verdadeira protagonista é Europa: essa Europa diversa, refinada e dialogante que o século XX destruiu em grande medida com suas guerras, nacionalismos e barbaridades posteriores.

Wiesenthal defende com elegância e certa tristeza o valor civilizatório do trem: um espaço de encontro, de conversa, de tempo suspenso. Frente à velocidade absurda dos aviões low-cost, o Orient-Express representava uma forma de entender a vida: lenta, atenta, sensual.

Recomendação de verão

Se neste verão você não pode se permitir uma grande viagem, Orient-Express é a melhor opção. Ele o levará de Paris até Constantinopla, passando pelos Bálcãs e pelos Alpes, sem filas de aeroporto nem atrasos. É um livro para ler na varanda ao entardecer, com uma taça de bom vinho (Wiesenthal, além disso, é um notável enólogo), deixando que as palavras o embalem como o tremor de um vagão de primeira classe.

Para os leitores do GoAragón

Aos leitores do GoAragón, amantes da cultura aragonesa em seu sentido mais amplo e profundo, este livro lhes interessará especialmente. Porque Wiesenthal defende uma ideia de Europa culta, humanista e diversa que também faz parte de nossa melhor tradição. Aragão, terra de passagem e de encontros, sempre entendeu essa vocação de ponte cultural. Em tempos de identidades fechadas e viagens expressas, Orient-Express nos lembra que a verdadeira riqueza está na trajetória, na conversa, no respeito ao que é diferente e na memória daquilo que fomos.

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