A economia aragonesa encontra-se à beira de uma transformação de magnitudes históricas. O recente relatório da Fundação Basilio Paraíso revela que a chegada massiva de centros de dados à comunidade gerará um impacto equivalente a dez por cento do seu PIB atual, com uma contribuição anual que oscilará entre 4.000 e 5.000 milhões de euros. Com mais de 47.000 milhões de euros comprometidos até 2035, Aragão se prepara para competir de igual para igual com os grandes hubs europeus de Londres e Frankfurt, já superando em projeção capitais tecnológicas como Paris e Dublin.
A fundação, vinculada à Câmara de Comércio de Zaragoza, trouxe números a um fenômeno que até agora era apenas intuído nos anúncios de gigantes como Amazon Web Services, Microsoft ou Blackstone. Segundo suas estimativas, a região se situará em terceiro lugar no ranking europeu de capacidade instalada, com mais de 2.500 megawatts destinados ao processamento de dados, um volume que a torna um ator principal da nova economia digital.
Para cada milhão de euros de investimento em centros de dados contratados diretamente de empresas aragonesas, geram-se aproximadamente 1,35 milhões de euros de atividade econômica total na região.
O impacto não será imediato, mas se desdobrará em dois tempos bem diferenciados. Na fase de construção, que se estenderá até 2035, Aragão viverá uma injeção de capital sem precedentes, com um pico de investimento entre 2026 e 2029 que pode atingir 16,8% do PIB regional em um único ano. Somente nesse período, a construção de infraestruturas gerará entre 7.900 e 10.800 milhões de euros de nova riqueza, arrastando setores como engenharia, indústria metalúrgica ou construção de materiais.
A segunda etapa chegará com a operação a pleno rendimento dos centros. Será então que o território consolidará um motor estrutural de atividade capaz de contribuir de maneira estável com até 982 milhões de euros anuais ao PIB e manter um gasto operacional próximo a 2.400 milhões, dos quais aproximadamente dois terços poderão ser absorvidos por empresas aragonesas. Nesse ponto, o efeito multiplicador é claro: para cada milhão de euros investido ou gasto em Aragão, geram-se 1,35 milhões de euros de atividade econômica na região.
Um dos elementos mais debatidos desde o anúncio dos investimentos tem sido a capacidade dessas infraestruturas para criar empregos. Frente ao ceticismo inicial, o relatório demonstra que a magnitude do fenômeno é considerável. Na fase de construção, a demanda laboral poderá alcançar entre 136.000 e 187.000 empregos equivalentes a tempo completo ao longo da próxima década, com picos de mais de 20.000 postos nos anos de maior intensidade. Uma vez em operação, os centros darão trabalho direto a entre 3.150 e 4.500 profissionais altamente qualificados —engenheiros, técnicos de informática, especialistas em instalações—, com um salário bruto médio de 42.000 euros. A isso se somará o efeito arrastador sobre a economia, que permitirá elevar o número total até 9.000 empregos estáveis.
O investimento transforma Aragão de um grande exportador de energia renovável para um grande produtor e autoconsumidor de energia renovável, consolidando seu status de hub energético.
Os cofres públicos também serão reforçados. O estudo estima que nos próximos dez anos as administrações aragonesas arrecadarão entre 860 e 1.200 milhões de euros graças a esses investimentos, enquanto os municípios envolvidos poderão arrecadar até 392 milhões, principalmente via IBI. Com esses recursos adicionais, sublinhou Azcón, “será possível construir hospitais, escolas ou habitações de interesse social que melhorem a qualidade de vida dos cidadãos”.
Mas nem tudo são flores. O relatório sublinha com clareza os desafios que deverão ser enfrentados para que essa onda de investimentos não descarrile. O mais urgente é garantir o acesso à rede elétrica. Embora Aragão produza quase o dobro da energia que consome e lidere em renováveis, a capacidade de conexão é limitada e a tramitação estatal avança com lentidão. O próprio Azcón reconheceu que a viabilidade dos projetos depende de que o Ministério de Transição Ecológica acelere os investimentos em transporte elétrico.
O consumo energético projetado é de entre 2.900 e 3.400 megawatts, o que equivale à metade da demanda elétrica regional prevista para 2030. No entanto, a aposta em contratos de fornecimento renovável e a integração de novas plantas solares e eólicas permitem imaginar um cenário viável, no qual a comunidade deixaria de ser somente exportadora de energia para se tornar uma grande autoconsumidora de renováveis. A água, outro dos assuntos sensíveis, terá um impacto equivalente entre 7,6% e 22,9% do consumo anual de Zaragoza. Para mitigá-lo, os promotores planejam recorrer a tecnologias de refrigeração eficientes e ao uso de água regenerada, o que colocaria Aragão na vanguarda da sustentabilidade neste setor.
No plano internacional, a aposta aragonesa já se compara a polos consolidados como o “Data Center Alley” da Virgínia, o cluster de Frankfurt ou o modelo irlandês. Todos eles mostram como uma concentração de infraestruturas digitais pode reconfigurar a economia de um território, atraindo empresas de inteligência artificial, biotecnologia ou fintech. Aragão aspira a replicar esse “efeito gravitacional” e reverter o retrocesso histórico de seu setor TIC, que perdeu 40% de participação nacional desde o ano 2000.
A Fundação Basilio Paraíso propõe medidas para consolidar esse caminho: desde a criação de um observatório independente que monitore o desenvolvimento, até a implementação de um fundo de investimento alimentado com as receitas fiscais dos centros, passando por um plano diretor que defina a estratégia a longo prazo.
Em definitiva, Aragão decidiu dar um salto que transcende o econômico para se situar como um nó chave da soberania digital europeia. O desafio é monumental, mas a oportunidade também o é. A região que até agora era conhecida como centro logístico do sul da Europa está chamada a se tornar uma das capitais globais dos dados.










