Saša Stanišić se adentra na literatura juvenil com um romance sobre o assédio que escolhe uma perspectiva especialmente interessante: a de quem testemunha o que está acontecendo e precisa decidir se intervém ou prefere se manter a salvo. Vencedora do Prêmio Alemão de Literatura Juvenil em 2024, Lobo fala sobre amizade, medo e pertencimento ao grupo com humor, sem transformar a história em uma lição moral.
O protagonista de Lobo não quer ir a um acampamento de verão e tem bons motivos, pelo menos do seu ponto de vista. Não se interessa muito pelas excursões pela floresta, pelas atividades na natureza nem pela convivência obrigatória que implica compartilhar por vários dias uma cabana, refeições e caminhadas com outros meninos. Os mosquitos e as bolhas também não ajudam. Saša Stanišić aproveita esse cenário reconhecível para apresentar Jörg, um colega de classe do narrador e um garoto que, por alguma razão difícil de precisar, ocupa aquele lugar que existe em tantos grupos: o de quem não consegue se encaixar.
Jörg desenha muito bem, sabe muitas coisas e sinceramente desfruta da floresta e das caminhadas. São características que o protagonista vai descobrindo à medida que convive com ele, mas que não impedem que outros meninos do acampamento o tenham escolhido como alvo de suas zombarias. O excluem, o humilham e encontram novas maneiras de lembrá-lo de que ele não faz parte do grupo. O narrador conhece essa situação porque acontece na sua frente e porque, no início, procura ficar à margem.
Aí Stanišić encontra o ponto de vista que faz com que Lobo seja algo mais do que outro romance sobre o assédio escolar. A história não é narrada por quem sofre diretamente as agressões nem se detém muito em analisar aqueles que as provocam. Vemos tudo através de alguém que sabe que o que está acontecendo é errado, mas também que enfrentar os outros pode ter consequências.
Ver o que acontece e decidir o que fazer
A posição do protagonista é desconfortável justamente porque é fácil se reconhecer nela. À medida que conhece melhor Jörg, começa a apreciar suas qualidades e a se incomodar cada vez mais com o tratamento que recebe. Isso não significa que de repente se torne seu defensor. Há uma distância considerável entre compreender uma injustiça e agir diante dela, especialmente em uma idade em que ser aceito pelos outros é tão importante.
Stanišić trabalha bem essa contradição e evita apresentar seu protagonista como um pequeno herói. Às vezes sente medo; outras, prefere ficar em silêncio e, em alguns momentos, se alegra, embora não queira reconhecer, de que as zombarias se dirijam a outro. Essa ambiguidade torna o personagem crível e permite que o romance levante uma questão que afeta diretamente os mecanismos do assédio: ao redor de quem agride e de quem sofre, costumam haver outras pessoas que observam, riem, guardam silêncio ou simplesmente tentam passar despercebidas.
A pertença ao grupo pesa muito nessas decisões. Defender Jörg implica correr o risco de compartilhar sua sorte e deixar de ocupar a confortável posição de quem não se destaca muito. O romance se move boa parte do tempo nesse terreno, sem necessidade de explicar continuamente ao leitor o que ele deveria pensar sobre o que está vendo.
O lobo da floresta
Durante o acampamento, um lobo começa a aparecer nos sonhos do protagonista. O recurso introduz um elemento inquietante em uma história que até então se desenvolveu em cenários muito cotidianos. A floresta, as cabanas e as caminhadas ganham outra dimensão quando a noite cai, e a presença do animal acompanha a crescente tensão que o narrador vive.
Stanišić não precisa esclarecer muito o que significa esse lobo. Pode ser lido como uma representação do medo, da ameaça que representa o grupo ou daquilo que o protagonista tenta evitar durante o dia e que retorna quando está sozinho. A imagem funciona precisamente porque permanece em aberto e vai adquirindo sentido à medida que a história avança.
Apesar do tema que aborda, Lobo também não é um romance sombrio. Há bastante humor na perspectiva do narrador, especialmente quando descreve o acampamento, as atividades programadas, os adultos que o cercam e seu baixo entusiasmo por desfrutar da natureza. Esse tom permite que a leitura avance com leveza e evita um dos riscos habituais das novelas juvenis que tratam de questões sociais: a intenção educativa se impor sobre os personagens e sobre a própria história.
As ilustrações em preto e branco de Regina Kehn também participam dessa atmosfera e acompanham o relato sem se tornar um simples adendo decorativo.
Um romance juvenil que não se limita a adolescentes
Lobo recebeu o Prêmio Alemão de Literatura Juvenil em 2024 e representa a primeira incursão de Saša Stanišić na literatura para jovens. Nascido na antiga Jugoslávia em 1978 e residente na Alemanha desde o início dos anos noventa, o escritor possui uma trajetória amplamente reconhecida na literatura alemã contemporânea. Entre outros prêmios, conquistou o Prêmio Alemão do Livro em 2019.
A edição espanhola foi publicada pela Siruela, com tradução de Alfonso Castelló, e conta com 192 páginas. É recomendada a partir dos 12 anos, embora a idade do leitor importe relativamente pouco para entender o conflito que Stanišić propõe. A necessidade de fazer parte de um grupo, a facilidade com que se aceita uma injustiça para evitar problemas e o medo de se tornar o próximo destaque não desaparecem necessariamente ao se abandonar a escola.
Talvez por isso o romance funcione melhor quando se afasta de uma leitura exclusivamente educativa. Pode servir, naturalmente, para falar sobre o assédio com adolescentes, mas seu interesse literário está em como retrata esses pequenos movimentos com os quais uma pessoa vai justificando seu silêncio até que esse silêncio comece a se tornar difícil de suportar.
Jörg é quem recebe as zombarias, mas Stanišić coloca o verdadeiro conflito no garoto que dorme ao seu lado. Durante alguns dias de acampamento, ele terá que conviver com ele, com os outros e também com a incômoda consciência de estar testemunhando algo que já não é tão simples fingir que não está acontecendo.
Ficha do livro
Lobo, de Saša Stanišić. Ilustrações de Regina Kehn. Tradução de Alfonso Castelló. Editorial Siruela, coleção Las Tres Edades. 192 páginas.










