Fernando Benzo viu realizado seu sonho de publicar aos 23 anos. Desde então, para este escritor madrilenho, tem sido um não parar. Há algumas semanas, viu a luz sua décima primeira novela, O dragão negro, uma história que leva ao limite não só seus personagens, mas também quem se encontra diante de suas páginas. E é que, como ele mesmo nos confessou nesta entrevista, quer que o leitor duvide de si mesmo, de seus valores, desses limites entre o bem e o mal que a todos parecem inalteráveis, mas que, entre as linhas desta novela, poderiam mudar completamente.
Primeiro, parabéns pela publicação da novela. Gostaria de começar perguntando sobre o princípio de tudo. Quando você descobriu seu amor pela escrita? Pois eu gostaria de saber, porque não sou capaz de situá-lo. Eu sempre me lembro escrevendo. Quando tinha 10 ou 12 anos, escrevia algumas histórias sobre aventuras de cowboys. Naquela época, assistia-se a muitos filmes de índios e cowboys, e me ocorreu escrever algo assim. Acho que sempre tive dentro de mim o impulso de escrever e contar histórias. Passei dessas histórias de cowboys para outro tipo de contos curtos e, depois, comecei a escrever romances. Foi uma evolução progressiva. Mas sou incapaz de situar o momento, porque toda lembrança que tenho de mim mesmo inclui a escrita.
E em que momento você começou a escrever thrillers? Antes, escrevia romances que não eram de um gênero específico, até que comecei a escrever romances com um componente de suspense ou policial, porque percebi que esse tipo de histórias me permitia contar muitas outras coisas. Dentro desse gênero cabe tudo. Você pode contar uma história de suspense, uma história de crimes, e na mesma novela falar sobre relacionamentos amorosos, relacionamentos familiares, crítica social ou corrupção política. É um gênero muito rico nesse sentido, que permite ter muitos subgêneros dentro das novelas.
Acho que é importante criar personagens que não tenham um único matiz. Na vida real, nenhum de nós é preto ou branco, todos somos uma soma de cinzas, e em Estela isso se mostra. Ela vai se ver obrigada a tomar algumas decisões contrárias à sua forma de pensar, a decidir onde está para ela essa linha entre o bem e o mal, entre o que é justo ou não. Precisamente em O dragão negro, você tratou temas muito atuais, como o racismo ou a corrupção. O que significa escrever sobre coisas que estão na ordem do dia? A verdade é que foi complexo, principalmente nos momentos em que os personagens entram em certos conflitos racistas. É preciso criar personagens que pensem algo que para você é muito desconfortável e que você não pensa. Não se pode confundir a voz do narrador com a voz dos personagens. É necessário ser capaz de diferenciá-los. Não pretendo escrever uma novela racista, o que pretendo é escrever uma novela onde há personagens que são racistas. Isso obriga a marcar uma diferença, a estabelecer uma distância, a deixar claro que esse traço faz parte da personalidade de um personagem, e isso exige um determinado esforço literário. Não se pode generalizar; porque há um personagem que é racista, a novela não possui uma mensagem racista; ou porque há um vilão que é chinês, como é o caso de O dragão negro, não significa que os chineses sejam maus. Como leitor, é preciso evitar sempre a tentação da generalização. Esses temas são explorados em diferentes linhas narrativas. Você encontrou alguma dificuldade ao escrever uma novela que envolve tantos personagens com histórias tão diferentes? Isso exige um trabalho de estruturar o argumento e as relações dos personagens para que as coisas se encaixem. Há uma coisa que eu não gosto nada, que me incomoda muito, que são histórias que deixam pontas soltas. Parece enganar o leitor. Não posso apresentar uma história, abrir dez tramas que prendam o leitor e, depois, de repente, chegar ao final, resolver duas ou três delas e o restante, fica aí, como você se vira com sua imaginação para ver como terminam. Você pode fazer um final literariamente ou poeticamente aberto, mas o que não se pode fazer é a trapaça de apresentar uma série de incertezas e não resolvê-las. Isso me parece uma fraude. Me esforço muito para que minhas histórias tenham fechamento e coerência.
No caso de sua protagonista, Estela, é um personagem muito complexo, com muitos claros e escuros, não só em seu papel de policial, mas também no de mãe. Cada vez mais, gosto de criar personagens protagonistas femininos, mas isso não deixa de ser um desafio. Conseguir criar um personagem feminino sólido, com lógica e bem construído, é um desafio muito mais apaixonante do que criar um personagem que poderia se parecer com você como pessoa. Além disso, acho que Estela era um personagem que oferecia muito potencial. Ela passou por certos problemas mentais como consequência de um caso anterior, que investiga na novela, em que teve que matar uma pessoa. Depois, é uma mulher que está atormentada pela exigência social de ser uma boa mãe acima de tudo. No seu caso, essa pressão é ainda maior porque é mãe solteira e isso a leva a se perguntar se é uma má mãe por se ocupar em buscar assassinos em vez de cuidar de sua filha. E como policial, ela tem que enfrentar um caso enormemente complexo, um caso que a sobrecarrega. A soma de tudo isso me parecia que criava um personagem muito interessante, principalmente porque acredito que é importante criar personagens que não tenham um único matiz. Na vida real, nenhum de nós é preto ou branco, todos somos uma soma de cinzas, e em Estela isso se mostra. Chega a ser um problema ser uma mulher extremamente quadrada e legalista. No final, se ela quiser acabar prendendo o bandido, vai se ver obrigada a tomar algumas decisões contrárias à sua forma de pensar, a decidir onde está para ela essa linha entre o bem e o mal, entre o que é justo ou não. No livro, também se questiona a existência do bem e do mal, mas o que você pensa sobre isso? Escrever esta novela mudou sua forma de ver as coisas? Eu acredito que se a você e a mim nos perguntássemos sobre diversos temas: isso é bom ou mau? Não concordaríamos em tudo e se trouxerem outra pessoa e fizerem as mesmas perguntas, ela não seria igual a você nem a mim, e se trazer outra, também se diferenciaria de nós três. Eu acredito que a linha exata de onde está o justo, o bom, o mau, o que pode ser feito, o que não pode ser feito, o que é ético, o que não é ético, varia muito de acordo com cada pessoa. Estela é um personagem extremamente rigoroso, mas o problema surge quando entra em um conflito entre a defesa da legalidade e a busca pela justiça. Em certo momento, isso a leva a questionar se é justificado sacrificar uma parte da legalidade, porque precisamente isso é o que a levará a fazer justiça. O fim justifica os meios? Eu tenho o meu, que provavelmente também é exclusivo, e onde posso errar em muitas coisas. Não é que a novela tenha mudado isso. O que quero demonstrar com a novela é que cada um de nós marca uma linha, e quero que quando o leitor termine de ler a novela, não apenas tenha se divertindo muito ao lê-la, que é o objetivo fundamental, mas que também deixe alguma reflexão.










