P. Em Os amores paralelos, aborda um episódio pouco conhecido na nossa história, como a Revolução das Astúrias de 1934. Por que decidiu situar a história ali?
R. Parecia-me um contexto muito interessante e, além disso, próximo. Há centenas de romances escritos sobre a guerra civil e queria contar algo diferente. A revolução de 34 é um episódio que ainda vive na memória de muitas pessoas da minha geração, cujos avós a vivenciaram diretamente. No entanto, as gerações mais jovens praticamente não têm ideia, é como se a história começasse na guerra civil e antes não tivesse acontecido nada. Parecia-me importante resgatar esse contexto. Foi uma insurreição operária e mineradora ocorrida em outubro daquele ano, inserida na greve geral revolucionária contra o governo da Segunda República Espanhola.
P. O romance combina história, emoção, amor, preconceitos… O que lhe interessava explorar nesta ocasião?
R. Interessava-me contar esses fatos a partir de dois pontos de vista distintos. Por um lado, a luta operária nas bacias mineradoras; por outro, a vida na cidade de Oviedo. Era uma época de grande polarização social e queria mostrar como se vivia de ambos os lados, sem julgar nenhum deles. Esforcei-me muito para não inclinar a balança para nenhum lado, em dotar a história de um ponto de neutralidade. Queria contar a revolução mineradora de 34 sem julgar ninguém, deixando que o leitor tirasse suas próprias conclusões.
P. Como construiu os personagens das duas famílias protagonistas?
R. A vida nas bacias mineradoras e a vida em Oviedo são as duas realidades que queria descrever e mostrar, dois cenários separados por apenas vinte quilômetros, mas que compunham mundos completamente distintos. Tão próximos e tão distantes. Na família mineradora, há três irmãos; na família de Oviedo, duas irmãs. Uma delas se apaixona por um guarda civil e se casa com ele; a outra se apaixona por um minerador anarco-sindicalista da CNT. Aí está o detonante. Para construir os personagens mineradores, tinha muito material vivo: meu próprio pai trabalhou criança em uma mina, falsificaram a data de nascimento dele para que pudesse entrar antes. Era o guaje, o ajudante do picador. Tempos muito duros.
“a revolução das astúrias de 34 é desconhecida para muitos, não me apetecia escrever mais um romance sobre a guerra civil”
P. A documentação deve ter sido fundamental nesta obra, ao recriar um acontecimento histórico muito específico que ocorreu antes da guerra civil espanhola nas Astúrias. Como viveu o processo de pesquisa? Encontrou alguma surpresa?
R. Tenho muitos amigos nas bacias mineradoras asturianas cujos avós viveram esse episódio. Uma amiga que trabalhou toda a sua vida em uma mina me ensinou, de primeira mão, o que significava aquele mundo. Realmente, a fase de documentação foi um processo muito intenso. Contava com testemunhos próximos do mundo minerador, mas aprofundar no contexto dos anos 30 foi mais complexo. Consultei jornais de diferentes ideologias para entender essa polarização. Queria ser rigorosa e poder me colocar no lugar de todos os personagens. Mas onde mais me custou pesquisar foi no contexto político e social dos anos trinta. Acabei recorrendo à imprensa histórica, lendo publicações de todo tipo de ideologia, porque a polarização social era enorme. Havia até uma violência política que se refletia nas ruas com frequência.
P. O eixo do romance parece ser a tensão entre o que se quer fazer e o que se deve fazer, o querer e o dever.
R. Totalmente. O leitor percebe constantemente a tensão entre o que os personagens desejam e o que devem fazer. Esse é um dos eixos do romance. As decisões nunca são inócuas, sempre afetam os outros, e mais em um contexto como o dos anos 30, onde tudo estava condicionado pela família, pela política e pela sociedade. A lealdade está no centro de tudo. A irmã mais nova luta contra sua família por amor a um minerador. Na família operária, um dos irmãos quer se lançar o quanto antes à revolução e o outro o impede. E há um elemento que me interessava muito sublinhar: os preconceitos não iam apenas das classes mais abastadas para a classe operária, mas também existiam na direção contrária. A família burguesa era percebida como a inimiga do operário. Temos, portanto, um conflito duplo.
P. Também há um retrato muito realista da vida na mina. Como recriou esse ambiente, tornando-o tão presente em suas páginas?
R. É fundamental no romance. A dureza desse trabalho, as condições, as famílias… Tudo isso faz parte do conflito. Mesmo hoje impressiona imaginar o que era descer em uma mina naquela época. Falei com muitas pessoas que me transmitiram seus testemunhos e também contei com muitas memórias e testemunhos da época do meu pai, meu tio…
“As decisões nunca são inócuas: sempre afetam aqueles que nos rodeiam”
P. O título, Amores paralelos, refere-se apenas a essas duas histórias de amor ou há uma leitura mais ampla?
R. Há muitos paralelismos no romance: entre as duas famílias, entre os irmãos, entre a maneira como cada um gerencia o contexto social, entre formas de entender a vida, entre relações… Mas, principalmente, o título aponta para essa relação entre as duas irmãs, fala desses amores que avançam em paralelo e que, por circunstâncias, não podem se encontrar. O romance começa no prólogo com uma das irmãs voltando da França para se encontrar com a outra após sessenta anos sem se ver. Depois, retrocedemos e reconstruímos tudo o que ocorreu. E no epílogo retornamos a esse encontro. Essa olhar para trás inevitavelmente tem um componente nostálgico. É preciso chegar ao final para saber se a reconciliação é possível.
P. Até que ponto o contexto condiciona a forma de amar?
R. Muito. Não é a mesma coisa se apaixonar hoje do que nos anos 30, e ainda menos se fosse contra a sua família. O contexto social e político influencia diretamente nossas decisões.
P. Houve momentos especialmente duros durante a escrita por se tratar de uma história próxima à sua história familiar e sua terra?
R. Sim, especialmente ao recriar episódios como o assalto aos quartéis da Guarda Civil. Foi uma revolução muito violenta, com milhares de mortos e detidos. Documentá-la e narrá-la foi emocionalmente intenso.
P. Os leitores estão respondendo como esperava? O que gostaria que o leitor levasse consigo?
R. O comentário que mais se repete e chega até mim dos leitores é que gostam que eu tenha contado a história de forma neutra. Isso é o que mais valorizo, porque era uma das minhas principais preocupações. Meu coração estava com os mineradores, evidentemente, minha família foi mineradora. Mas quando dou voz ao guarda civil não posso fazer uma caricatura desse personagem. Tenho que dar-lhe argumentos, tenho que me colocar em seu lugar, assim como com o padre ou com a família burguesa. Os leitores são adultos e não precisam que o autor lhes diga o que devem pensar. Realmente, gostaria que o leitor desta novela refletisse. Não busco dar mensagens fechadas, mas abrir perguntas. Gostaria que o leitor entenda a complexidade daquela época e que veja que a história não é branca ou negra.










