A Colômbia se prepara para uma mudança de rumo. A vitória de Abelardo de la Espriella nas eleições presidenciais abre uma nova etapa política após os quatro anos de governo de Gustavo Petro e antecipa, sobretudo, uma relação muito mais estreita com os Estados Unidos.
A mudança não é pequena. A Colômbia tem sido durante décadas um dos principais aliados de Washington na América Latina, mas a chegada de Petro à presidência e o retorno de Donald Trump à Casa Branca geraram numerosos desentendimentos entre os dois governos.
Agora o cenário pode ser muito diferente. De la Espriella, que também possui a nacionalidade americana, expressou publicamente sua admiração por Trump e compartilha com sua Administração uma visão muito mais dura em questões como narcotráfico, criminalidade e segurança.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, esteve entre os primeiros líderes internacionais a parabenizar o vencedor das eleições e expressou a vontade de Washington de reforçar a cooperação com o próximo governo colombiano.
A segurança volta ao centro do debate
Boa parte da mudança política colombiana se explica observando o interior do país. A expansão dos grupos armados continua sendo um de seus principais problemas. Segundo os dados coletados pela BBC Mundo, essas organizações somam atualmente mais de 27.000 integrantes, aproximadamente o dobro de cinco anos atrás.
Os problemas relacionados ao narcotráfico, aos cultivos de coca e à violência em diversas regiões também persistem.
Petro tentou enfrentar essa realidade por meio de sua política de «paz total», que priorizava as negociações com os diferentes atores armados. De la Espriella propõe praticamente seguir o caminho oposto: reforçar as Forças Armadas, aumentar o gasto militar e endurecer a resposta frente às organizações criminosas.
O próximo presidente chegou a sugerir a possibilidade de impulsionar uma espécie de «Plano Colômbia 2.0», recuperando como referência o programa de cooperação entre Bogotá e Washington desenvolvido no início deste século.
A experiência histórica, no entanto, mostra a complexidade do problema. A pressão militar contribuiu para enfraquecer as FARC e facilitou posteriormente o processo de negociação que culminou com o acordo de paz, mas aquelas políticas também estiveram acompanhadas de graves episódios de violência e do fortalecimento de estruturas paramilitares.
Um aliado a mais para Trump na América Latina
A mudança colombiana tem, além disso, consequências que vão muito além de suas fronteiras. A Administração Trump está reforçando sua atenção sobre a América Latina, especialmente em questões relacionadas ao narcotráfico, migração e segurança.
Um governo colombiano alinhado com essa estratégia pode modificar os equilíbrios regionais. Durante a presidência de Petro, Bogotá havia mantido importantes diferenças com Washington. Com De la Espriella, a Colômbia pode se tornar novamente um de seus aliados políticos e estratégicos mais próximos na América do Sul.
O desafio será determinar até onde pode ir essa colaboração. A proximidade política não significa necessariamente que os interesses de Washington e Bogotá coincidam sempre. A Colômbia terá que gerir seus próprios problemas de segurança e desenvolvimento enquanto os Estados Unidos perseguem uma agenda regional marcada por suas prioridades em imigração, narcotráfico e luta contra o crime organizado.
A China entra na equação
Há também um terceiro protagonista que torna a relação entre a Colômbia e os Estados Unidos algo bastante mais complexo: a China. Como aconteceu em outros países latino-americanos, nos últimos anos a Colômbia reforçou seus laços econômicos com Pequim.
A China já compete com os Estados Unidos para se tornar o principal parceiro comercial do país e sua capacidade de investimento lhe permitiu aumentar consideravelmente sua presença na América Latina.
Esse aproximamento pode se tornar um dos primeiros dilemas internacionais do novo governo colombiano. Uma maior sintonia política com Washington poderia vir acompanhada de pressões para reduzir determinados vínculos com a China. Mas fazê-lo não será simples. As relações comerciais, os investimentos e os interesses econômicos criados ao longo dos últimos anos fazem de Pequim um ator difícil de ignorar.
Assim, a Colômbia terá que se mover entre as duas grandes potências enquanto tenta preservar seus próprios interesses.
Um país dividido diante de uma nova etapa
O resultado eleitoral mostra também até que ponto a Colômbia chega dividida a essa mudança política. Quase 13 milhões de colombianos apoiaram De la Espriella frente aos 12,7 milhões que votaram em Iván Cepeda, candidato vinculado ao petrismo, segundo o pré-conteio citado pela BBC Mundo.
Uma diferença estreita que antecipa uma legislatura marcada por uma forte oposição política e social. O próprio presidente eleito moderou o tom após saber da sua vitória e prometeu governar para todos os colombianos. Agora ele terá que traduzir essa vontade em um país que continua enfrentando profundas desigualdades, economias ilícitas, violência e uma presença limitada do Estado em determinadas áreas.
São problemas que a Colômbia arrasta há décadas e que nenhum governo conseguiu resolver completamente, alternando políticas de negociação e estratégias de mão dura.
De la Espriella chegará à presidência prometendo um novo rumo. Mas seu grande desafio será demonstrar que a proximidade com Washington e o endurecimento da política de segurança podem se traduzir também em estabilidade, desenvolvimento e oportunidades para um país que continua buscando como fechar definitivamente as feridas de seu longo conflito.










