Creio que esse fascínio despertado pelo Graal decorre de uma circunstância que é, no fundo, excecional; muito poucos objetos conseguiram reunir, ao longo dos séculos, uma dimensão histórica, religiosa, literária e até simbólica, com uma enorme transcendência. Porque pertence, de facto, simultaneamente à história do cristianismo, enquanto cálice de Cristo, que é onde esta lenda se baseia, ainda que remotamente, e também à construção de um imaginário medieval europeu, que é toda a lenda desse objeto, com qualidades especiais que geram toda uma literatura do ciclo arturiano. E responde a essa necessidade, profundamente humana, de encontrar testemunhos materiais que nos permitam estabelecer uma ligação tangível com grandes acontecimentos do passado.
Na perspetiva cristã, o cálice da Última Ceia tem uma importância extraordinária, porque não estaríamos a falar de uma relíquia qualquer, mas do recipiente que Jesus Cristo utilizou na Última Ceia e que deu origem à Eucaristia. Se aceitarmos esta identificação, que é a base da criação literária — e é muito importante assinalá-lo — daquilo que viria depois a ser o mito do Graal, estaríamos perante um dos elementos essenciais para compreender até mesmo a literatura de cavalaria. É também necessário recordar que, na mentalidade medieval, as relíquias não são apenas recordações piedosas, mas testemunhos materiais do sagrado. Além disso, são elementos de legitimação política.
Um historiador tem um método, pelo que deve abordar esta questão da mesma forma que qualquer outro problema histórico, realizando uma análise crítica das fontes, contextualizando os testemunhos, estudando, neste caso, o objeto material e, sobretudo, distinguindo entre aquilo que podemos demonstrar, aquilo que consideramos provável e os outros elementos que são filhos da tradição; de uma tradição oral que não se baseia em documentos nem noutro tipo de testemunhos, mas que permaneceu como uma lenda piedosa. É também necessário distinguir, naturalmente, aquilo que é uma criação literária. Creio que esta distinção é essencial, porque a história não consiste em confirmar as nossas crenças nem em destruir tradições, mas em verificar o que realmente aconteceu no passado, utilizando todos os instrumentos de que nós, historiadores, dispomos numa investigação científica.
Foi precisamente outra peça ali conservada, uma caixa de prata niquelada, que despertou a nossa atenção, juntamente com outros objetos. A questão era saber por que motivo aqueles objetos e, em especial, aquela arca, que é um presente diplomático do mais alto nível, estavam ali. Fomos seguindo as fontes, investigámos fontes cristãs e muçulmanas, crónicas e documentação cristã, e não encontrámos nada. Isso levou-nos a pensar que talvez as respostas estivessem no Egito. Chegou a notícia de que o cálice de Cristo, venerado pelas comunidades cristãs desde a construção do Santo Sepulcro, no tempo do imperador romano Constantino, se encontrava numa capela própria no Santo Sepulcro de Jerusalém. Sabemos que esses objetos chegaram não só a Dénia, mas também a Leão.
Quando se é educado a compreender o passado e ensinado a amá-lo desde o início, entende-se que todos os testemunhos e todas as fontes vão criando uma realidade que não se pode interpretar de forma isolada.
Em grande medida, a influência vem da minha família. A minha mãe, que era uma mulher extraordinária, ensinou-me a amar a história. Não cresci com os contos do Capuchinho Vermelho nem com histórias infantis; cresci com os relatos das grandes façanhas, as histórias e as biografias dos nossos grandes heróis. Cresci a amar a história. Confesso que a época romana também me apaixona. Tudo o que o Império Romano representa atrai-me muito, talvez porque, como leonesa, sou em grande medida filha das duas legiões que controlaram a Hispânia depois da conquista, por Otávio Augusto, do último território indómito da Península Ibérica: as terras dos meus antepassados, os cântabros e os astures.
A investigação histórica tem muito mais emoção do que habitualmente se pode imaginar, porque existe uma imagem muito difundida do historiador como alguém que passa toda a vida rodeado de documentos antigos, examinando pergaminhos com lupas e tentando decifrar escritas que deixaram de ser utilizadas há séculos. Uma parte do nosso trabalho consiste nisso, mas por detrás dessa tarefa existe toda uma extraordinária aventura intelectual, muito mais ampla. Por vezes, é preciso viajar até aos lugares para compreender de onde nasce o sol, até onde se põe, e assim entender o desenrolar de uma batalha. E é preciso fazê-lo com toda a humildade do mundo, porque esse é um dos grandes ensinamentos que recebi.
Tenho de confessar que a repercussão foi muito maior do que José Miguel Ortega del Río e eu podíamos imaginar quando publicámos o nosso estudo. Pensávamos que, inicialmente, o debate ocorreria no meio académico e que outros historiadores examinariam as mesmas fontes, discutiriam e apresentariam dados. Uma das coisas que mais me surpreendeu negativamente foi ver que, antes de o livro estar à venda, já havia um professor catedrático espanhol a criticar o que nele aparecia, embora fosse impossível que o tivesse lido, porque ainda não estava no mercado.
Os mosteiros desempenham um papel essencial na construção, conservação e transmissão da memória ao longo de toda a Idade Média. Para o compreender, é necessário abandonar a imagem do mosteiro como um espaço dedicado apenas à oração ou ao isolamento espiritual. Embora sejam grandes centros religiosos, e isso é evidente, também são instituições culturais, económicas e políticas de primeira ordem. São verdadeiros arquivos da memória coletiva dos reinos medievais e, de facto, graças aos seus documentos, aos seus cartulários, etc., podemos hoje recompor grande parte da história medieval do nosso país.
As relíquias desempenham um papel central em todo este processo porque, para a mentalidade cristã medieval, uma relíquia não é um objeto nem uma recordação: é uma ligação material com o sagrado.










