O anúncio de um investimento de 25 milhões de euros e a criação de até cem postos de trabalho em Pedrola colocou o nome da Shenghe em evidência na Aragão. Por trás do projeto está uma empresa chinesa especializada em um campo muito específico, mas cada vez mais relevante para a transição energética: a recuperação de materiais utilizados na fabricação de baterias e o desenvolvimento de novos materiais para esta indústria.
A Shenghe Energy Technology nasceu em 2009 e desenvolveu boa parte de sua atividade em torno das tecnologias para recuperar e purificar N-metil-2-pirrolidona, conhecido pelas suas siglas NMP. Trata-se de um solvente empregado, entre outras aplicações industriais, nos processos de fabricação de baterias de íon-lítio.
Sua especialização ajuda a entender a importância do investimento anunciado na Aragão. A Shenghe não chega a Pedrola para fabricar baterias, mas sim para se posicionar em um dos elos de sua cadeia industrial: recuperar um material utilizado durante sua produção, purificá-lo e garantir que possa retornar ao processo produtivo.
Tecnologia para fechar o ciclo de produção
A atividade da Shenghe se articula principalmente em torno de duas áreas. Por um lado, desenvolve soluções completas para a recuperação de NMP, que incluem sistemas de recuperação, instalações de destilação e purificação e sistemas de armazenamento. Por outro, produz materiais condutores destinados a fabricantes de baterias, entre eles nanotubos de carbono e pastas condutoras.
A companhia oferece ainda projetos integrais, desde o design do processo e a engenharia até a fabricação de equipamentos, instalação, colocação em funcionamento e treinamento.
Esta combinação coloca sua atividade em um ponto de encontro entre indústria química, economia circular e nova indústria energética. O objetivo não consiste apenas em gerir um resíduo, mas em recuperar um produto com qualidade suficiente para ser reutilizado industrialmente.
No caso do projeto anunciado para Pedrola, a instalação está desenhada para tratar até 100.000 toneladas de NMP por ano. O processo previsto inclui recuperação de gases e destilação até alcançar uma pureza superior a 99,92%, além de sistemas de aproveitamento energético capazes de recuperar mais de 80% do calor gerado, segundo os dados fornecidos pelo Governo de Aragão.
Uma empresa com uma elevada especialização técnica
Um dos elementos que caracteriza a Shenghe é precisamente sua aposta na pesquisa aplicada a um nicho industrial muito especializado.
Segundo a informação corporativa da própria companhia, sua estrutura tecnológica inclui três empresas reconhecidas na China como companhias nacionais de alta tecnologia, duas empresas com reconhecimentos provinciais relacionados à especialização e inovação e um portfólio que supera as 80 patentes.
A Shenghe afirma ainda dispor de centros de produção próprios certificados sob diferentes normas ISO e de equipes de pesquisa e desenvolvimento dedicadas tanto aos processos de recuperação de NMP quanto a novos materiais condutores.
A especialização adquire maior relevância à medida que aumenta a produção mundial de baterias. A expansão do veículo elétrico e dos sistemas de armazenamento energético está gerando ao redor das baterias uma cadeia industrial muito mais ampla do que a fabricação das próprias células. Materiais, componentes, produtos químicos, recuperação de solventes, reciclagem e reutilização também fazem parte desse ecossistema.
É precisamente neste mercado que a Shenghe busca se posicionar.
Uma expansão que já saiu da China
A chegada à Aragão faz parte de uma estratégia internacional mais ampla. Segundo os dados divulgados pelo Governo de Aragão, a Shenghe conta atualmente com doze filiais internacionais, com presença em países e territórios como Espanha, Hungria, Cingapura, Indonésia, Malásia e Hong Kong.
A essa estrutura somam-se três centros produtivos na China e uma fábrica na Indonésia que começará a operar em 2026. A futura instalação de Pedrola se incorporará a essa rede internacional e será um dos novos centros industriais da companhia fora de seu mercado de origem.
A própria Shenghe já havia sinalizado em 2026 que estava ampliando sua infraestrutura internacional e preparando sua implantação na Espanha. A companhia participou ainda este ano do The Battery Show Europe, realizado em Stuttgart, um dos encontros internacionais especializados na indústria de baterias, onde apresentou suas soluções de recuperação de NMP e materiais baseados em nanotubos de carbono.
Por que a sua chegada à Aragão é relevante?
A importância da operação pode ser medida inicialmente nas cifras: 25 milhões de euros de investimento, até cem empregos, 20.000 metros quadrados de superfície e uma capacidade prevista de tratamento de 100.000 toneladas anuais.
Mas existe uma segunda leitura industrial. A chegada da Shenghe introduz na Aragão uma atividade especializada diretamente relacionada à cadeia de valor das baterias e à economia circular.
A planta permitirá que um material empregado durante a fabricação possa ser recuperado, purificado e reutilizado, reduzindo o consumo de matéria-prima virgem e os resíduos associados ao processo. A localização aragonesa pode ainda permitir à companhia aproximar essa tecnologia e capacidade de tratamento do mercado europeu.
O projeto adquire também importância sob a perspectiva do investimento internacional. A Aragão Exterior realizou mais de 40 gestões entre maio de 2025 e abril de 2026 para facilitar a implantação, trabalhando com a empresa e com organismos como Invest in Spain, prefeituras, engenharias e consultorias.
Pedrola, uma peça da estratégia internacional da Shenghe
A escolha de Pedrola não implica, portanto, apenas na abertura de uma nova fábrica. Para a Shenghe, representa um passo em seu processo de internacionalização e em sua aproximação ao mercado europeu.
Para a Aragão, a questão será verificar até que ponto esse investimento pode contribuir para gerar um ecossistema mais amplo ao redor das baterias, do armazenamento energético e da economia circular.
As grandes transformações industriais não dependem apenas das plantas que fabricam o produto final. Ao seu redor são necessárias empresas capazes de fornecer materiais, tecnologia, serviços, componentes e soluções de recuperação e reciclagem.
Esse é precisamente o espaço industrial que ocupa a Shenghe. Uma companhia pouco conhecida até agora na Espanha, mas especializada em uma atividade que ganha importância à medida que a Europa desenvolve sua própria cadeia de valor vinculada às baterias.










