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8 febrero 2026

Marcos Chicot: «A história não precisa de adornos: o meu trabalho é contá-la com verdade e tensão»

Marcos Chicot, psicólogo clínico e finalista do Prémio Planeta, encerra a sua trilogia de assassinatos filosóficos com El asesinato de Aristóteles (O assassinato de Aristóteles), ambientado na agitada Grécia do século IV a.C. Nesta entrevista para Go Aragón, o autor revela como a sua formação em psicologia acrescenta dimensão a pensadores como Platão ou Sócrates, agora confrontados com conspirações sob o domínio de Alexandre, o Grande.

Quando começou o seu amor pela literatura?

O meu amor pela literatura começou antes do que consigo lembrar. Assim que aprendi a ler, fiquei fascinado por contos, por Asterix, por Tintin… Depois vieram os romances. Não saberia dizer uma data. É como perguntar-te qual é a tua primeira lembrança: está aí desde sempre.

O que te levou a optar pelo thriller e pelo romance histórico?

Comecei escrevendo romances de diferentes géneros. Eram testes, desafios pessoais, muitos deles não publicados. Mas fui me concentrando no thriller histórico porque é o que mais gosto como leitor. Para mim, a combinação perfeita é entreter e aprender ao mesmo tempo. É isso que procuro escrever.

Por que escolheu a Grécia Antiga e os seus filósofos como tema central?

A pergunta, na verdade, seria: como não escolher? A Grécia clássica é a fase mais fascinante da história: uma explosão artística, intelectual e vital. E os filósofos são aqueles que lançam as bases de tudo o que somos hoje. Ética, moral, política… tudo começa aí.

«A Grécia clássica é tão fascinante que não escrever sobre ela seria estranho.»

Estudaste Psicologia e trabalhaste nessa área. Como isso influenciou a tua escrita?

Muito. Quando crio uma personagem, trato-a como um paciente em terapia. Faço testes de personalidade, sento-a no divã. Mostro apenas a ponta do iceberg, mas conheço os seus traumas, a sua infância, o seu mapa emocional. É uma deformação profissional muito útil.

Os teus romances exigem um grande trabalho de documentação. Como te documentas?

Sou um perfeccionista obsessivo. Leio tudo o que posso: obras originais, historiadores próximos da época, fontes primárias. Depois, com essa base sólida, construo o enredo ficcional. Mas sempre com uma premissa: nunca alterar a realidade histórica.

O que te surpreendeu durante este processo de investigação?

Alejandro Magno. Achamos que o conhecemos, mas por trás do mito descobri uma pessoa muito solitária. Ele tinha uma visão imperial quase utópica: unir a Europa e a Ásia por meio de relações, não de conquistas. Ninguém o entendia, nem seu exército, nem seus amigos. Ele era um visionário e muito humano.

“Nunca altero a realidade histórica. É a ficção que se adapta a ela, não o contrário.”

Como consegue equilibrar a realidade histórica com a tensão narrativa?

A chave está em que a ficção abrace a história, sem a alterar. O fio narrativo serve para manter o ritmo, as reviravoltas, os confrontos. Mas sempre deixando claro ao leitor o que é verdade e o que é invenção. Por isso incluo uma carta explicativa no final de cada romance.

«O assassinato de Aristóteles» encerra uma etapa? O que vem a seguir?

Sim, encerra a minha etapa de reconstrução da Grécia clássica. Não quero voltar a fechar-me durante cinco anos num romance. Vou procurar projetos mais compatíveis com a vida. Mas sempre com um compromisso divulgativo. Como dizia Voltaire: a literatura deve ter uma função social.

Disse que o livro aborda mais o assassinato das suas ideias do que o do personagem. O que quer dizer?

Platão, Sócrates, Aristóteles… as suas ideias incomodavam o poder. Eram perigosas. Tal como hoje. Denunciavam a corrupção, a demagogia. Quando lemos o que viveram, não podemos deixar de ver paralelos com a nossa sociedade atual.

«Alexandre, o Grande, não queria vencer, queria unir. A sua visão era demasiado grande para a sua época.»

Existe uma contradição entre as habilidades necessárias para alcançar o poder e as necessárias para exercê-lo. Como você vê isso?

Platão dizia: quem tem as virtudes para governar, não deseja fazê-lo. Quem deseja, geralmente não tem essas virtudes. Governar deveria implicar buscar o bem comum, a felicidade do maior número possível de pessoas. Mas as habilidades para chegar ao poder são outras: ambição, falta de escrúpulos, manipulação.

Aí está a tensão das nossas democracias.

O que aprendeste com estes romances?

Foram 20 anos a ler e a pensar com os maiores mestres do pensamento humano. É impossível que isso não te transforme. Eles ensinaram-me o pensamento crítico, a moral, a profundidade. Fazem parte de quem eu sou.

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