No âmbito do III Congresso Nacional de Escolas Rurais, conversámos com Juan Hernández, assessor do Ministério da Educação e da Fundação Princesa de Girona, e uma das vozes mais ativas na defesa da escola rural. Com uma trajetória que une pedagogia, inovação e compromisso social, Hernández reflete sobre os desafios do meio rural, o impacto de projetos como Generación Docentes ou RadioEdu, e lança uma mensagem clara: “A escola rural não é um lugar de passagem, é uma oportunidade que transforma”.
Como nasceu o Congresso Nacional de Escola Rural?
Foi concebido em Extremadura. Lembro-me que no início foi complicado, porque não nasceu de uma administração educativa. Embora eu trabalhasse no Centro de Professores e Recursos de Navalmoral de la Mata, o congresso nasceu como uma iniciativa de quatro pessoas que fundámos uma associação educativa chamada Mórula. Queríamos fazer uma pequena jornada para a comunidade educativa rural, mas o projeto cresceu, instituições como a Fundação Princesa de Girona juntaram-se a nós e decidimos dar o salto para o primeiro congresso nacional. Foi muito trabalho, mas a vontade de melhorar a educação rural deu-nos força.
Qual foi o papel do Ministério da Educação neste impulso à escola rural?
O Ministério está muito sensibilizado com a escola rural. Na sequência do primeiro congresso, foi criada uma categoria específica nos prémios educativos para populações com menos de 5000 habitantes. É um gesto importante, embora não tenhamos uma linha estratégica direta na minha área, mas é reconhecido e apoiado.
«A escola rural vai cativar-te, vai apaixonar-te e vai transformar-te.»
Qual é a importância da colaboração entre instituições para impulsionar este tipo de congressos?
É fundamental. Assim como a educação é feita por todos, um congresso nacional sobre a escola rural deve contar com o envolvimento de todas as instituições e administrações educativas. É a única forma de que a mensagem chegue e se note o compromisso coletivo.
Quais são os objetivos do programa Generación Docentes?
Generación Docentes, promovido pela Fundação Princesa de Girona, é um dos programas mais poderosos lançados nos últimos anos. Permite que 30 estudantes universitários de diferentes comunidades façam estágios em escolas rurais. Foi uma aposta arriscada no início, mas deu visibilidade a esta realidade educativa. Muitos desses jovens mantêm contacto com os centros, alguns até querem voltar. É um programa transformador.
«A colaboração institucional não é opcional, é a base para que a escola rural seja visível e forte.»
Fale-nos do projeto RadioEdu.
É um dos meus projetos pessoais mais queridos. Nasceu num momento complicado da minha vida, quando me refugiei na rádio e pensei que talvez tivesse escolhido a vocação errada. Mas decidi unir as minhas duas paixões: educação e comunicação. Começámos com quatro alunos numa sala de reforço e vimos como eles ficavam motivados. Com o tempo, fomos crescendo, recebendo apoios e, finalmente, criámos uma rede com mais de 400 centros na Extremadura com rádio educativa. A rádio, embora pareça antiquada em comparação com a televisão ou as redes sociais, gera magia na sala de aula.
O que é que a rádio traz ao ambiente educativo rural?
Dá identidade. Ter um projeto como a rádio escolar faz com que a escola se torne um eixo da comunidade. Participam os alunos, as famílias, as associações da aldeia, até a Câmara Municipal. É muito mais do que uma ferramenta educativa: articula o tecido social do meio.
«Não se pode rejeitar a escola rural se não se viveu. É preciso quebrar essa barreira.»
E do ponto de vista pedagógico?
A rádio trabalha todas as competências: estruturação do tempo, comunicação oral e escrita, trabalho cooperativo. Gosto de dizer que a rádio é como a natação: um exercício completo que desenvolve múltiplas habilidades. Incluímos até a gestão económica para que os alunos saibam como fazer um orçamento ou apresentar um projeto. É uma aprendizagem integral, divertida e significativa.
Quais são os principais desafios da escola rural?
O maior é o despovoamento. As comunidades autónomas, que têm competências em educação, devem trabalhar para reverter essa tendência. Há experiências muito bonitas: alunos que vão para o ensino secundário ou universitário, mas querem voltar à sua aldeia para viver e trabalhar. Outro grande desafio é a divulgação. Precisamos da ajuda dos meios de comunicação para que a mensagem da escola rural chegue além dos congressos.
O que diria a um futuro professor que está em dúvida se deve ou não ir para uma escola rural?
Diria para ir. Mais de 90% dos professores passam, em algum momento, por uma escola rural. Não é fácil, tem desafios, mas se você se deixar guiar por professores experientes, você se apaixona. Não se pode rejeitar algo que não se conhece. É preciso dar o salto. A escola rural traz mais benefícios do que você imagina.










