A amizade entre homens e mulheres é possível, mas nossa sociedade ainda não a normalizou

P. Você vem a Zaragoza em plena turnê de promoção. Como você está vivendo esses dias de entrevistas? R. Estou em uma rota de imprensa, então são dias intensos, com entrevistas praticamente o dia todo. No início, estava muito nervosa —a primeira que fiz na vida foi ao vivo—, mas agora eu aproveito muito. Estou me divertindo bastante.

P— A escrita te acompanha desde a infância. Houve algum momento específico em que você decidiu que isso era sério?

R— Sempre gostei de escrever. Desde pequena, eu escrevia contos para a escola, trocava cartas com meus amigos com cartas de quinze páginas… A verdade é que a vida nos leva por outros caminhos e acabei me dedicando profissionalmente ao direito, que também gosto muito. Mas nunca deixei de escrever. A primeira novela escrevi por diversão, sem saber muito bem aonde aquilo ia parar e, no final, acabou nas livrarias.

«Aprendi a ler sozinha com três anos e não parei desde então. Tenho em casa uma biblioteca com mais de quatro mil livros»

P. Antes de escrever, todos somos leitores. Que tipo de literatura te marcou? R. Sempre fui muito leitora, aprendi a ler sozinha com três anos e não parei. Gosto de quase tudo: romance histórico, thriller, policial, romântico… E especialmente da literatura francesa, aqueles romances em que aparentemente “nada acontece”, mas que deixam uma marca. Também autores espanhóis como Marta Rivera de la Cruz ou Máximo Huerta. Aproveito a leitura sem precisar de grandes emoções.

P. Essas leituras, influenciaram a sua forma de narrar? R. Com certeza sim, embora de forma inconsciente. Eu leio como leitora, não analisando o estilo, mas tudo vai ficando. No final, escrevemos com tudo que já lemos.

P. Amigos, nada mais é sua segunda novela e nela você aborda a amizade entre homens e mulheres. Por que você escolheu esse tema? R. É uma realidade que me interessa há anos. Sempre tive amigos homens e acredito firmemente nisso. A amizade não tem gênero, embora socialmente ainda gere muito debate e existam muitos preconceitos.

P— De onde nasce essa segunda novela? Como surge a história?

R— Tinha claro que em algum momento eu iria escrever sobre isso, mas não tinha a história. O estopim foi uma viagem de trabalho a Chicago há quase dois anos, com dois colegas homens e uma mulher. A volta dessa viagem foi quando de repente eu disse: «Agora tenho a história». Voltei, comecei a escrever e não parei até terminar. A novela é ficção, evidentemente, mas essa viagem foi o ponto de partida.

“A amizade não tem gênero. É um tema que gera muito debate. Sempre se presume que deve haver algo mais»

P— A pergunta do milhão: pode existir uma amizade genuína e pura entre um homem e uma mulher?

R— Eu acredito que sim, absolutamente sim, é possível e é real. Eu, além disso, pratico. Mas é verdade que às vezes o entorno questiona mais do que as próprias pessoas envolvidas. Tenho muito bons amigos homens, os tive a vida toda. Na universidade, meu grupo era quase só de meninos e eu era a única menina. Para mim, são amigos, independentemente do gênero ou se têm parceira. O que é verdade é que é complicado, não por si mesmo, mas pelos outros. Em nossa sociedade, se um homem e uma mulher são amigos e algum dos dois tem parceiro, sempre se presume que deve haver algo mais. As novas gerações normalizam mais isso, mas as nossas e as mais velhas, nem se fala. É um tema que suscita muito debate e que em teoria as pessoas aceitam, mas quando se coloca na prática não fica tão claro.

P. A amizade é um tema recorrente e central em sua obra. O que representa para você? R. A amizade é uma das maiores joias que temos. Você pode viver sem um parceiro, ou até mesmo sem relação com parte da sua família, mas é muito difícil imaginar a vida sem amigos. E, no entanto, muitas vezes não os cuidamos o suficiente. A amizade, além disso, não costuma ser egoísta. É um ato de generosidade.

P— Sua primeira novela chegou às livrarias de uma maneira bastante singular. Como aconteceu?

R— Tive muita sorte, na verdade. Escrevi a história porque de repente disse: «Aqui há uma história!». Sem pensar aonde iria parar. Dei a ler para pessoas próximas e uma delas foi Máximo Huerta, que leu, adorou e publicou em suas redes algo como «Editores do mundo, corram atrás dos direitos, é uma novela muito boa». Eu estava viajando para Londres naquele momento e quando pousei, tinha chamadas de várias editoras. Passei quatro dias no telefone sem acreditar. No final, fiquei na Planeta com o mesmo editor que Máximo.

P— Você também é uma apaixonada por viagens. De fato, outra de suas paixões é escrever guias de viagens que são verdadeiros tesouros. Como «a viagem» influencia suas novelas?

R— Muito. Para mim, a ambientação é fundamental. Gosto de situar e localizar as histórias em lugares reais que o leitor possa conhecer ou até visitar. Sou apaixonada por viajar e as viagens fazem parte da minha forma de entender a escrita.

«Viajar é outra das minhas paixões. Ambientar e localizar as histórias em lugares que realmente existem me fascina. As viagens fazem parte da minha forma de entender a escrita»

P— Como é o seu processo criativo? Você tem algum ritual na hora de escrever?

R— Nenhum especial. O computador vai comigo a todos os lugares e escrevo onde posso e quando posso. A primeira novela escrevi inteiramente entre aviões, aeroportos e Starbucks pelo mundo afora. A segunda também tem muitas horas de voo. Dito isso, percebo que quando chego ao último terço já não consigo parar, fico escrevendo à noite e dá três horas da manhã sem perceber. Sou mais noturna que diurna.

P— Como você definiria seu universo literário?

R— Histórias sem grandes sobressaltos, com personagens muito humanos, capítulos curtos e que deixem um bom gosto. Me interessa que o leitor se identifique e que viaje através da história.

P— O que você gostaria que o leitor sentisse ao fechar o livro? O que você busca provocar no leitor? R— Eu gostaria que ele fechasse o livro com um sorriso, com um bom sentimento e uma visão bonita da vida. Se além disso ele se sentir movido a retomar uma amizade, já é maravilhoso. No início da turnê, uma leitora me escreveu e contou que havia lido a novela e que, ao terminá-la, pegou o celular e escreveu a um amigo com quem havia perdido o contato para retomar essa amizade.
É emocionante. Achei a coisa mais bonita que poderiam me dizer. Só por isso já valeu a pena escrever a novela.

«Uma leitora me disse que ao terminar o livro pegou`

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