«Tentei misturar o presente e o passado de uma forma ágil e divertida.»
O jornalista e escritor Sergio Vila-Sanjuán recebe-nos num hotel no centro de Saragoça, horas antes de participar no ciclo Martes de Libros organizado pela Fundação Ibercaja. Diretor do suplemento cultural do jornal La Vanguardia, ele visita a cidade para apresentar Misterio en el Barrio Gótico (Mistério no Bairro Gótico), um romance que ganhou o Prémio Fernando Lara e que transforma o coração histórico de Barcelona num cenário de intriga, memória urbana e crítica velada à turistificação. Nesta conversa, ele fala sem rodeios sobre escrita, cidade, cultura e identidade.
Sergio, muito obrigado por nos receber. Bem-vindo a Saragoça para a apresentação do seu romance «Misterio en el Barrio Gótico», vencedor do Prémio Fernando Lara deste ano. O que significa para si este prémio e como influenciou a perceção da sua obra?
O Prémio Fernando Lara é um dos mais bem dotados da literatura espanhola. Tem uma grande difusão e uma história importante para mim. Fernando Lara era filho de José Manuel Lara Hernández, o fundador da Planeta. Eu o conheci, e ele morreu jovem num acidente antes de completar 40 anos. Seu pai, um editor brilhante, criou o prémio em sua memória. O primeiro vencedor foi Terenci Moix, um dos meus mestres. Portanto, além da alegria pelo reconhecimento e pela divulgação, há uma carga sentimental que me emociona.
O romance transforma o bairro gótico de Barcelona num cenário vivo de intrigas e segredos históricos. Como surgiu a ideia de ambientar a história neste bairro emblemático e que pesquisa realizou para capturar a sua alma secreta?
O bairro gótico é o coração da cidade. Quando era criança, ia com o meu pai, que era historiador, e ele contava-me histórias do bairro. Há 15 anos, fui nomeado membro da Real Academia de Buenas Letras, que fica no Palácio Requesens. Voltei a frequentar regularmente o bairro e percebi o quanto ele havia mudado. Esses passeios, a consciência dessas mudanças e os estudos na biblioteca da Academia me levaram a pensar que era um cenário perfeito para um romance.
No romance, o protagonista, Víctor Balmoral, é um jornalista próximo da aposentadoria que investiga um desaparecimento antigo e recebe cartas ameaçadoras. Até que ponto esse personagem é inspirado na sua própria experiência como jornalista cultural?
Emprestei-lhe muitas coisas, embora ele não trabalhe no La Vanguardia, mas num jornal fictício chamado «La Voz de Barcelona». Emprestei-lhe alguns temas de saúde, a minha forma de vestir, os meus gostos musicais, a minha visão da cidade e do jornalismo. Mas há diferenças: ele vive sozinho; eu vivo com a minha mulher e quatro filhos. Há coincidências e diferenças.
«Não queria fazer nem um romance histórico nem um romance policial puro, mas sim uma fórmula híbrida.»
O enredo liga o suspense a temas como a memória urbana e os efeitos da turistificação. Que mensagem quer transmitir sobre como o passado influencia o presente das ideias?
Mais do que transmitir uma mensagem, queria levantar questões. O romance, antes de mais nada, procura entreter. É uma história de mistério com personagens interessantes. O cenário levanta questões como: vale a pena restaurar tanto uma zona que deixa de se parecer com o que era? É legítimo fazê-lo? Por um lado, tem-se beleza, mas também gentrificação e perda de identidade. Não tenho resposta. Em alguns casos, vale a pena, noutros, não.
Houve uma deterioração cultural em Barcelona desde os anos 60 até agora?
Não, houve uma evolução. Nos anos 60, Barcelona era muito criativa. Era menos controlada pela ditadura do que Madrid. Recebíamos muita cultura francesa e italiana. Foi uma boa época para arquitetos, fotógrafos, literatos. Em 1992, com as Olimpíadas, ela se transforma: é reformada, se abre para o mar e muda o tipo de visitante. De cidade de congressos, passa a ser um destino turístico global. A partir de 1998, tornou-se um dos grandes destinos do sul da Europa. O centro histórico ficou superlotado, e isso refletiu-se no romance.
«A originalidade do romance está nessa mistura entre o presente e o passado, entre o cotidiano e o misterioso.»
No romance aparecem lugares reais, como a Real Academia de Belas-Letras ou a Catedral de Barcelona. Como equilibra a ficção com a realidade histórica?
Todos os locais são reais, exceto o Palácio Sayeric, cujo nome alterei por respeito. A minha intenção era combinar tramas de mistério com a vida quotidiana atual e episódios históricos. Essa mistura entre passado e presente foi o trabalho mais delicado. Não queria um romance histórico nem policial puro, mas sim uma fórmula híbrida. Acho que é aí que reside a originalidade.
Mencionou Terenci Moix. Até que ponto ele influenciou o seu estilo narrativo?
Muito. Li-o quando era adolescente. Tinha uma sensibilidade urbana, nostálgica pela antiga Barcelona. A sua nostalgia era a dos anos 40, não a minha, mas descrevia muito bem essa atmosfera. Além disso, combinava cultura clássica (Shakespeare, Renascimento) com cultura pop (Beatles, cinema de Hollywood). Foi um grande exemplo. Não copio o seu estilo, mas ele influenciou a minha forma de ver o mundo.
Barcelona é hoje mais cosmopolita, mas culturalmente também o é?
Sim, é muito cosmopolita. É a capital editorial da América Hispânica. Produz-se muito cinema e música. Antes havia mais diferença cultural em relação a outras cidades espanholas. Agora equilibrou-se, o que é positivo. Barcelona continua a ser poderosa.
«Através das gémeas Eva e Eugenia, quis retratar duas figuras femininas unidas, mas opostas.»
Disse que Barcelona é um género literário. Acha que cidades como Barcelona também podem sê-lo?
Sim. Hoje estuda-se a literatura de cidades como Londres, Paris ou Barcelona. Há 20 anos, fui pioneiro na sistematização da literatura barcelonesa. Coescrevi «Passeios pela Barcelona literária». Outras cidades também o são, como Saragoça. Tem autores como Ramón J. Sender, Irene Vallejo, Daniel Gascón ou Félix Romeo. Há muito material.
Acha que, tal como acontece com o cinema, os escritores poderiam vir para se inspirar em cidades como Saragoça?
Sim. Seria bom que as instituições promovessem isso. Que os escritores viessem, se inspirassem, escrevessem aqui. Isso seria muito enriquecedor.
Entre as personagens do romance estão Mariflor Juvellachs, Mosén Bentanachs ou as gémeas Eva e Eugenia. Qual foi a mais desafiante de criar e porquê?
As gémeas Eva e Eugenia, porque não são baseadas em ninguém real. Uma é guia turística, terrena; a outra, religiosa e espiritual. São opostas, mas unidas. Eu quis representar duas formas diferentes de ser mulher. Estou contente com o resultado.
No romance, inclui figuras históricas como Jaime I ou Federico Marès. Por que decidiu integrá-las?
Para misturar o passado e o presente. Marés, por exemplo, tem um museu muito curioso. Era um colecionador apaixonado. Durante a Guerra Civil, salvou património. É uma figura muito interessante e pouco conhecida. Eu quis recuperá-la.
“Barcelona passou de cidade de congressos a destino turístico global. E isso mudou a sua alma.”
No romance, a Real Academia de Boas Letras atravessa uma crise financeira. Há paralelos com a situação cultural real?
Não é sobre a Academia em si, mas sobre a cultura. Após a morte de Franco, houve um grande investimento na cultura durante 30 anos. Desde 2007, e mais fortemente desde 2012, a cultura perdeu peso político. Muitas instituições sofreram. É isso que reflito no romance. Felizmente, agora melhorou.
Você escreveu narrativa, ensaios e teatro. Como concilia esses géneros?
O meu trabalho principal é ser editor-chefe do La Vanguardia. Escrevo de manhã, aos fins de semana, nas férias. Tento que cada projeto seja diferente. Fiz romances, ensaios e duas peças de teatro. Uma sobre bullying escolar e outra sobre o mundo editorial («La gente literaria»), que estreou com sucesso.
Você disse que a literatura em castelhano e catalão deve ser vista como vasos comunicantes.
A Catalunha tem duas literaturas poderosas: uma em espanhol e outra em catalão. Não se trata de eliminar uma ou outra, mas de potenciar ambas. São línguas românicas, fáceis de aprender entre si. O bilinguismo enriquece. A cultura catalã tem peso e, para conhecer bem a região, é preciso conhecer as duas.
Para terminar, o que espera que os leitores de Saragoça descubram no seu romance?
Tenho vindo muitas vezes a Saragoça. Tenho amigos aqui. Sempre me senti bem acolhido. Entre Aragão e Barcelona existem muitas ligações. Espero que os leitores aragoneses se interessem pelo livro e que gostem dele.










