Zhou, que chegou à Espanha há quase duas décadas vindo da China com um visto de estudante, desenvolveu uma trajetória marcada pela mediação cultural e pelo acompanhamento educativo. Seu olhar combina experiência acadêmica e prática social, o que lhe permite analisar com precisão fenômenos como a integração, o papel do idioma ou as tensões da segunda geração de famílias migrantes. Nesta entrevista, ela reflete sobre educação, identidade, estereótipos e convivência.
P. Como nasce um livro intitulado «Não são contos chineses» escrito por uma mulher chinesa?
R. Não surgiu de repente. Tenho mais de dez anos observando situações nas salas de aula, com crianças e pais. Conflitos pequenos, mas muito significativos: amizades, frustrações, mal-entendidos… Tudo isso foi se acumulando dentro de mim. Escrever este livro é o resultado de uma década de observação e reflexão.
P. Conte-nos sobre seu livro. Entretenimento infantil ou intenção pedagógica?
R. É um livro de contos com enfoque psicopedagógico. Cada capítulo é um conto que fala sobre algo da vida cotidiana das crianças: na escola, no pátio, em casa. O que faz é conectar situações do dia a dia com a sabedoria da filosofia chinesa.
P. Há um capítulo que te pareça especialmente significativo?
R. Há um que fala sobre a filosofia de «examinar a si mesmo três vezes ao dia», que é uma máxima do confucionismo. A lição é: antes de criticar os outros, olhe para si mesmo.
P. A quem se destina o livro?
R. A todo mundo. Para as crianças, quero que se sintam próximas dos personagens. Para os pais, que possam ver o que acontece na escola.
P. Vocês já esgotaram a primeira edição e vem uma segunda. Como está sendo a recepção?
R. Muito bem. Fizemos uma apresentação na Casa da Cultura com muito apoio. Tivemos atividades para o Dia do Livro.
P. Você nasceu em Luoyang, uma cidade com onze dinastias em seu passado. Como é crescer em um lugar assim?
R. Culturalmente, nasci em uma terra muito rica. Luoyang é uma cidade antiga, com uma enorme história. Cresci em um ambiente muito diverso, com raízes muito distintas.
P. E como você chegou, precisamente, a Zaragoza?
R. Queria fazer o doutorado no exterior. Meu pai sugeriu que eu tirasse um ano de férias e assim vim.
P. Sua tese de doutorado tratou precisamente sobre a identidade étnica da segunda geração de chineses. O que você encontrou?
R. É um tema fascinante porque a segunda geração de chineses tem uma situação muito complicada. Seus pais chegaram sem recursos e os filhos carregam uma confusão de identidade muito profunda.
P. Como intérprete em serviços sociais, que situações você encontrou com famílias chinesas que não dominam o espanhol?
R. Situações muito difíceis. Algumas famílias estão há anos no mesmo nível de espanhol, o que gera uma carga enorme sobre os menores que atuam como intérpretes.
P. Por que a comunidade chinesa demorou tanto para se abrir linguisticamente?
R. Durante muito tempo, não precisavam, já que o negócio chinês era um círculo completamente fechado.
P. O bullying é um problema específico para as crianças chinesas nas escolas?
R. O problema não é das crianças chinesas, é do ambiente. As crianças refletem a educação de seus pais.
P. Para terminar: o que você gostaria que os leitores levassem de seu livro?
R. Para as crianças, que se sintam reconhecidas. Para os pais, que descubram a sabedoria chinesa de dois mil anos que fala das mesmas coisas que nos preocupam hoje.










