Nerea Erimia: escrever a partir da fissura

Nerea Erimia não fala da perfeição como uma meta, mas quase como uma armadilha. Acabou de publicar Literariamente tua com a Planeta, mas quando pensa em sua escrita não recorre à ideia do romance polido, confortável ou impecável, mas a outra bem mais reveladora: a fissura. “Sou uma autora que gosta de escrever a partir da fissura e não da perfeição”, afirma. Nessa frase não há apenas uma poética, mas também uma declaração de intenções sobre o tipo de personagens que decide colocar em pé e sobre a classe de verdade emocional que lhe interessa explorar.

Para Erimia, a perfeição não apenas parece suspeita na vida: também pode ser na literatura. “Infelizmente, há muitas pessoas que se acreditam perfeitas ou, melhor dizendo, que se enganam acreditando que o são por necessidade”, reflete. Essa observação, lançada aparentemente contra certa teatralidade contemporânea, acaba se projetando sobre o romance romântico, um território onde abundam os leitores que buscam personagens demasiado inteiros, demasiado seguros, demasiado reconfortantes. “Proliferam pessoas que querem ler sobre personagens perfeitos”, sinaliza, talvez porque “você quer ler algo seguro, confortável, com o final feliz que a vida não te dá”. Frente a essa tentação, sua resposta é clara: “Meus planos não contemplam contribuir para continuarmos nos enganando assim”.

Aí nasce Literariamente tua, um romance que, sob as formas da comédia romântica, parece se interessar menos pela fantasia da perfeição do que pela incomodidade de se olhar de frente. “Acredito que é um romance sobre se apaixonar, sobre ter coragem de confiar, mas, principalmente, acho que é um romance sobre se gostar”, resume a autora. A frase ilumina com bastante precisão o coração do livro: o amor entendido não apenas como vínculo com o outro, mas também como uma batalha íntima com a própria insegurança.

Essa tensão se concentra em Bianca Blake, uma protagonista que Erimia não tenta adoçar. Ao contrário: ela a define com uma mistura de crueza e afeto. “Insegura, tagarela e orgulhosa”, diz quando é pedido que a resuma em três palavras. Em outro momento, acrescenta que Bianca é “direta, sem filtros e um pouco esquisita”, e que uma parte de suas leitoras pode se reconhecer exatamente nessa zona caótica, menos complacente, menos ornamental. Também pensa em quem “estiver um pouco cansada do típico estereótipo da mulher arco-íris” e busca um personagem “mais incômodo de alguma forma”. Não parece uma formulação casual: Erimia não quer uma heroína desenhada para agradar sem falhas, mas uma figura com arestas, com impulsos contraditórios e com uma relação conflitante consigo mesma.

Em frente a ela, situa Adam Kingston, que também se afasta com decisão do molde habitual do herói romântico. “Ele não é um estereótipo de personagem masculino comum, mas o que deveria ser um homem deste novo século”, sustenta a autora. E logo acrescenta uma observação que abre uma leitura mais ampla: “Parece que ainda temos medo de escrevê-los ou de que existam diretamente”. Adam é editor de romance romântico em Nova York, trabalha em uma editora que quase exclusivamente contrata mulheres, lê o gênero, o defende, gosta de filmes românticos. É, nas palavras de Erimia, um personagem “em comunhão com seu lado feminino, sem deixar de lado o masculino”.

A dinâmica entre ambos se sustenta precisamente sobre esse deslocamento de papéis e energias. “O contraste entre Adam e Bianca, ela mostrando atitudes tão masculinas e ele tão femininas, faz com que a dança entre os dois seja deliciosa”, explica. Essa ideia da “dança” é reveladora: mais do que opô-los de forma rígida, o romance parece se interessar pela complementaridade, pelo jogo de tensões entre dois personagens que não se encaixam nos modelos mais previsíveis da romântica comercial. Também aí se percebe o propósito de Erimia: mover-se dentro do gênero sem se entregar completamente a seus automatismos.

Porque Literariamente tua não é apenas uma história de amor; é também um romance consciente da tradição em que se inscreve e dos mecanismos com os quais dialoga. Erimia reivindica com clareza a margem lúdica da comédia romântica. “Uma das vantagens de escrever comédia romântica é brincar, fazer piadas e tomar certas licenças”, diz. E empurra essa ideia um pouco mais longe ao defender a possibilidade de brincar com “os clichês, com o que já foi escrito e com o que está por vir”, e até mesmo com a ruptura da quarta parede. Longe de esconder os códigos do gênero, os exibe, os trabalha e os submete a uma conversa constante com o leitor.

Esse jogo com a tradição não se limita aos recursos narrativos. Também se inscreve em uma genealogia literária muito concreta. Literariamente tua, afirma sua autora, “é de alguma forma uma carta de amor às autoras que vieram antes, mas principalmente às autoras que estão agora e às autoras que virão depois”. Há nessa frase uma defesa do linaje feminino da escrita, mas também uma vontade de acolhimento, quase de continuidade. Não surpreende, portanto, que quando imagina com qual autora do passado Bianca se sentaria para tomar chá, a resposta surja sem hesitações: Jane Austen. Mais do que uma referência cultural, a escolha parece condensar uma sensibilidade: o gosto pelo engenho, a observação emocional, a ironia e o diálogo com uma tradição de escritoras que pensaram o amor sem reduzi-lo nunca a um simples ornamento.

Também os cenários participam desse diálogo entre emoção, imaginação e construção de identidade. O romance começa em Nova York e se desloca depois para os Cotswolds, com paradas em lugares como Bibury. Mas Erimia não usa esses espaços apenas como cenário, mas como uma forma de retratar seus personagens. “Ambas as cidades descrevem meus personagens”, explica. “Quando um deles está descrevendo esse lugar que tanto ama, na verdade, está se descrevendo sem perceber”. A observação é especialmente significativa no caso de Bianca, que “encontrou de alguma forma seu lar em Nova York depois de vir de um lar que não considerava seu lar”. Mais tarde, a viagem à Inglaterra e a relação com Adam deslocam novamente essa ideia de pertencimento, como se o mapa emocional do livro fosse também uma busca por casa.

A escolha da Inglaterra, além disso, responde a um imaginário deliberado. “Adoramos os cavalheiros, adoramos os modos, adoramos as séries de época”, admite Erimia, ciente de que em torno do país gravita uma certa fantasia sentimental compartilhada. “De alguma forma, romantizamos a Inglaterra a ponto de acharmos que é o berço de tudo isso”, acrescenta. Essa fascinação cultural, longe de ser anedótica, faz parte do tom do romance e de seu entrelaçamento de referências.

No final, entre Nova York e a campina inglesa, entre os clichês aceitos e o desejo de subvertê-los, entre a herança de Austen e a incomodidade contemporânea de Bianca, o que aparece com mais clareza é a fidelidade de Nerea Erimia a uma ideia de escrita. Não se interessa pela máscara da segurança, nem na vida, nem na ficção. “Não vence quem tem a última palavra”, diz em um dos momentos mais claros de seu discurso, “mas quem realmente aprende algo pelo caminho”. Talvez por isso seus personagens não almejem a perfeição, mas algo muito mais difícil: reconhecer seus medos, atravessar suas contradições.

ARTICLES CONNEXES

Subscribe
Notify of
guest
0 Comments
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments

VOUS POURRIEZ ÊTRE INTÉRESSÉ PAR