Após uma década de prática e pesquisa entre museus, templos zen e salas de arte, Ignacio Mateos apresenta um livro que propõe uma via de meditação contemporânea baseada na contemplação artística. Uma obra acessível e profunda que, como ele afirma, “atualiza de maneira agradável e rigorosa todo esse saber ancestral para o leitor atual”. O projeto, desenvolvido a partir da plataforma Artpath, já despertou o interesse de instituições como a National Gallery.
Este é seu primeiro livro. Como foi enfrentar a escrita? O que significou para você transformar uma prática tão íntima como a meditação em uma obra compartilhada?
Como descobrirá o leitor, «Meditarte» é um livro muito especial. É o resultado de um processo que durou cerca de uma década de pesquisa, exercício e redação canalizado através da organização Artpath, fundada em Nova York e da qual venho divulgando a prática da meditação contemplativa através da arte. O trabalho de lapidar, organizar e adaptar todo esse conhecimento para um leitor universal foi um processo muito enriquecedor que me permitiu conectar melhor comigo mesmo e também com os outros.
Você vem do mundo da arte e também da meditação. Em que momento esses dois caminhos se uniram em você, e como nasceu a ideia de Meditarte?
Um dia, enquanto observava em um museu uma das versões de Nenúfares de Monet, comecei a refletir sobre por que a observação de certas obras de arte me proporcionava um bem-estar similar ao que experimentei ao meditar. Anos mais tarde, enquanto estudava no Sotheby’s Institute of Art em Nova York, após a concessão de uma bolsa de “la Caixa”, comecei a entrelaçar, sempre respeitando a essência das antigas tradições, as disciplinas artística e meditativa até fundar a Artpath, precursora digital do livro «Meditarte».
Você se formou no Zen Buddhist Temple de Nova York sob a orientação de Samu Sunim. O que o levou até lá, e como viveu esse aprendizado espiritual e humano?
Minha família sempre privilegiou um ambiente focado na leitura e na reflexão. Meu tio-avô, o Padre Cristóbal Barrionuevo, jesuíta missionário no Japão e companheiro do Padre Arrupe, foi também uma parte da minha inspiração nesse caminho. Após anos de prática mais solta, foi há cerca de uma década que comecei a desenvolver uma prática mais constante e comprometida sob a orientação do Venerável Samu Sunim, fundador do Buddhist Zen Temple de Nova York. Sinto-me muito afortunado por ter podido trilhar um caminho guiado por tais referências.
Algo muito importante que impregna «Meditarte» é essa mensagem de que a meditação não é apenas uma prática, mas um caminho de vida que deve ser integrado em nosso cotidiano. Também essa defesa de uma meditação inclusiva, aberta a todos, sem rigidez e sem importar de onde se vem ou aonde se vai.
“A escrita e a leitura nos permitem ver as coisas com maior clareza. São excelentes ferramentas para discernir entre o que nos faz bem e o que não.”
Quais diferenças você destacaria entre a meditação zen que aprendeu no templo e o enfoque que você propõe, através da contemplação da arte? São caminhos paralelos ou complementares?
Complementares. Todos os caminhos se retroalimentam. O zen tem sido praticado há séculos e ainda hoje continua atual. O que propõe «Meditarte» é uma metodologia atualizada à realidade das pessoas que vivemos no século XXI, tempos em que não é tão fácil encontrar a pausa ou o silêncio. Dado que somos uma sociedade tão visual, aprenderemos como é possível utilizar um motivo como uma obra de arte ou um cenário para utilizar sua estética para nos organizar e esclarecer nossa mente.
No Meditarte você propõe um método de meditação contemplativa através da arte. Que tipo de transformação pessoal você espera que o leitor experimente ao percorrê-lo?
«Meditarte» é um método poderoso capaz de ajudar a se sentir bem àqueles que experimentam sua leitura. A prática da meditação contemplativa tem múltiplos benefícios que vão desde a capacidade de relaxar, organizar nossas emoções ou melhorar nossa concentração, até desenvolver nossa criatividade e conectar, assim, com nosso verdadeiro ser.
O livro se estrutura em sete blocos simbólicos — água, terra, fogo, ar, metal, madeira e vazio — cada um associado a uma obra de arte. Como surgiu essa estrutura e que papel desempenham esses elementos?
Uma das prioridades era que, apesar de desenvolver ideias sofisticadas ou elevadas, o livro fosse facilmente acessível a todos, independentemente de se ter conhecimentos prévios de arte ou meditação. Com essa estrutura de sete blocos conseguiu-se uma obra muito agradável e prazerosa de ler; quase como se fosse um videogame que o leitor deve jogar, aprendendo as habilidades e conectando com as ideias e conceitos que cada bloco entrelaça de maneira quase poética.
Você escolheu peças muito concretas para cada bloco, desde Van Gogh até Hokusai. O que o levou a selecionar essas obras e não outras? O que buscava que evocassem?
Cada elemento conecta, com grande intenção, com uma obra de arte assim como com os ensinamentos das grandes escolas de meditação universal. Trata-se de uma seleção muito cuidadosa e surpreendente. Por exemplo, o primeiro bloco, o mais fundamental, nos aproxima da técnica da respiração, comparando-a de maneira metafórica com o ritmo sedativo das ondas do mar. Há muita sugestão oculta no livro. Nada foi deixado ao acaso.
“O que propõe Meditarte é uma metodologia atualizada à realidade das pessoas que vivemos no século XXI, tempos em que não é tão simples encontrar a pausa nem o silêncio.”
No bloco dedicado ao fogo você fala sobre aceitar a imperfeição através do haiku ou da cerâmica raku. Você acredita que vivemos em uma cultura excessivamente obcecada pela perfeição?
Com certeza. Muitos acreditam que os mitos pertencem ao passado, mas hoje vivemos imersos em uma sociedade guiada por uma grande idealização. A publicidade, a inteligência artificial ou os algoritmos que nos dominam, nos transmitem modelos de perfeição impossíveis. Não podemos ignorar que a imperfeição e o sofrimento são aspectos reais de nossas vidas e que devemos aprender a conviver com isso da forma mais confortável.
No capítulo do vazio você menciona Agnes Martin e sua busca pela beleza serena. Que lugar tem o silêncio em sua prática pessoal e no método que propõe?
O silêncio é fundamental para podermos nos escutar, mas não devemos nos obsessar em escapar para um lugar perfeito. Sempre haverá um pouco de barulho ou desconforto. A chave está em saber identificar esses momentos de grande alvoroço interior para, intuitivamente, sermos capazes de colocar em prática todas essas habilidades que nos ajudarão a nos serenarmos.










