Cristina Monzón: «O Caminho do Santo Graal é um diamante bruto»

O Graal alimenta há séculos aventuras e buscas impossíveis. No vosso caso, decidiram procurá-lo a pé. O que esperavam encontrar quando empreenderam esta viagem?

Cristina Monzón: Tenho uma trajetória como peregrina do Caminho de Santiago, estudei turismo e não fazia ideia de que, em Valência, havia uma relíquia com tantas provas que podiam validar que estávamos perante o verdadeiro cálice de Cristo. Sabia que havia uma tradição, mas pensava que era uma história de avós que tinha passado de geração em geração, que se dizia, se contava… que na catedral de Valência se encontrava o Santo Cálice. Mas, em 2022, convidaram-me para um lanche que fará sempre parte da minha vida. Nesse lanche também estava convidada a doutora Ana Mafé, que apresentou as evidências com base nas quais defende que esta relíquia reúne elementos arqueológicos e da história da arte que podem comprovar a sua autenticidade. Além disso, explicou-me que a Santa Sé tinha reconhecido Valência como cidade jubilar por toda esta tradição e pela guarda do Santo Cálice. No final desse encontro, contou-me que existia um caminho de «protoperegrinação» que unia os Pirenéus à cidade de Valência, mas que estava a começar e ainda era pouco conhecido. E é aqui que entra o meu amigo Álex, que tem um canal de viagens no YouTube. Sem pensar mais, disse-lhe: «Álex, pegamos nas mochilas e vamos fazer um trecho do caminho?».

Foi mesmo assim, numa espécie de loucura, e fizemo-lo de uma forma muito naïf, porque não estudámos nem nos preparámos, pensando que seria como o Caminho de Santiago, com tudo sinalizado. Partimos com as mochilas às costas e o que não sabíamos era que, a partir de Somport, esse primeiro passo iria mudar as nossas vidas, não só do ponto de vista pessoal, mas também profissional.

Aconteceram-nos coisas mágicas. Sei que pode soar exagerado, mas não encontro outra palavra.

Percorreram mais de 600 quilómetros por uma rota ainda pouco conhecida. O que encontraram durante essa aventura?

Cristina: Aconteceram-nos coisas mágicas. Sei que pode soar exagerado, mas não encontro outra palavra. O Caminho de Santiago também permite uma renovação pessoal, uma ligação com a natureza e consigo mesmo, mas este caminho, por ser tão pouco percorrido, permite avançar a um ritmo lento de peregrino, conhecer os habitantes locais e descobrir as pistas que vai deixando, quase como uma gincana, sobre a possível passagem do Graal por esses lugares.

Lembro-me de que, para mim, era importante começar com uma bênção do peregrino. Estávamos a gravar em Santa Cruz de la Serós, numa igreja que acreditávamos estar dessacralizada, e apareceu um sacerdote. Estávamos a repetir planos e incomodámo-lo bastante, pedindo-lhe que se colocasse de um lado ou do outro. Por fim, perguntou-me: «Não sabes quem sou, pois não?». Afinal, era o bispo de Jaca, que tinha ido fazer uma substituição, e acabou por nos dar a bênção do peregrino. Para mim, foi um sinal maravilhoso.

Alejandro: Digo sempre que este caminho faz com que te sintas como Indiana Jones. Como é tão pouco percorrido, tens de manter todos os sentidos despertos para conseguires segui-lo. E cada coisa que encontras parece que és a primeira pessoa a chegar para a descobrir. Na nossa primeira etapa, perdemo-nos e acabámos por encontrar um monólito que assinalava a passagem do Santo Graal. Estava praticamente coberto de ervas, no meio do nada. Foi uma sensação incrível. Aconteceu-nos muitas vezes e acredito que a qualquer pessoa que faça o percurso de olhos abertos possam acontecer coisas semelhantes. É um caminho onde ainda te perguntam o que estás a fazer ou para onde vais. Ainda não existe uma rede de albergues tão consolidada como no Caminho de Santiago, e isso também torna a experiência muito diferente.

Gosto dessa definição de «peregrinos curiosos», porque uma coisa é conhecer a história e outra é atravessá-la a pé. O que descobriram no terreno que dificilmente teriam aprendido nos livros?

Cristina: Acho excelente documentar-se previamente, seja através do romance histórico ou de textos mais académicos, porque a magia do caminho consiste em que aquilo que leste nos papéis, de repente, encontras diante de ti. Por exemplo, quando chegas a Jaca e contemplas determinadas representações medievais relacionadas com a tradição de são Lourenço, ficas arrepiado. A tradição cristã conta que, durante a perseguição aos cristãos em Roma, no ano 258, são Lourenço conseguiu salvar o cálice enviando-o para a Hispânia. E depois encontras representações dessa história no património aragonês. Na igreja de Ena, onde descobrimos uma Virgem com uma taça, também encontrámos uma representação de são Lourenço com a grelha, o instrumento do seu martírio. Será uma coincidência? Pode ser. Mas é fascinante descobrir como todas essas histórias convergem num mesmo lugar.

E há algo mais que me impressionou profundamente: as paisagens de Aragão. Não conhecia bem Huesca e apaixonei-me por ela. Os Pirenéus e os Pré-Pirenéus fazem-te sentir a grandeza da natureza, da vida, do universo ou de Deus, como cada um quiser chamar-lhe. Também nos comoveu a generosidade dos seus habitantes. Em algumas ocasiões, quando não encontrávamos albergue, dormimos em casas de pessoas que nos abriram as suas portas.

Alejandro: É incrível encontrar, num mesmo lugar, tantas coisas sobre as quais tens estado a ler. Além disso, quando percorres o caminho, as histórias deixam de ser algo abstrato. Estás fisicamente nesses espaços, podes percorrê-los, observá-los e compreender melhor o que significavam.

Este caminho faz com que te sintas como Indiana Jones.

Precisamente, uma das vossas descobertas mais surpreendentes ocorreu em Ena, uma pequena localidade da província de Huesca, quando descobriram uma escultura românica que vos chamou especialmente a atenção.

Cristina: Foi uma das experiências mais marcantes que vivemos. Tínhamos lido O fogo invisível, de Javier Sierra, e interessámo-nos especialmente pela iconografia de algumas virgens românicas representadas com uma taça na mão. Um dia, parámos numa pequena aldeia de cerca de vinte casas, Ena, aos pés de San Juan de la Peña. Nem sequer estava previsto pararmos ali, mas Alejandro tinha ficado sem cigarros e precisava de descansar um pouco, por isso aproximei-me da igreja, que estava fechada, e descobri um cartaz com uma descrição do que havia no seu interior. Falava de uma escultura românica de uma Virgem sentada, com o Menino ao colo e um objeto na mão. Quando vi a imagem, chamei Alejandro imediatamente. Era uma taça! Não parecia uma maçã nem um orbe, que são elementos muito mais habituais nestas representações. Começámos a bater às portas da aldeia até encontrarmos uma rapariga que tinha a chave da igreja. Conseguimos entrar, fotografámos a imagem e enviámos as fotografias à doutora Mafé, porque não somos mais do que peregrinos curiosos. Ela entusiasmou-se com a descoberta e considerou que poderia ser uma representação relacionada com essa iconografia das virgens que levam uma taça.

Foi muito emocionante descobrir que o caminho podia esconder essas pistas. Sentimo-nos um pouco como Indiana Jones, e isso deu-nos ainda mais forças para continuar a caminhar. Mas houve outra coisa nessa aldeia que me tocou ainda mais o coração. A rapariga que nos abriu a igreja contou-nos que era dali, embora vivesse em Saragoça. Disse-nos que, se aquele caminho chegasse a tornar-se uma rota de peregrinação conhecida, deixaria o seu trabalho e regressaria à sua aldeia para abrir um negócio. Os seus olhos brilhavam enquanto falava, e pensei que estávamos a percorrer uma parte dessa Espanha despovoada que tem paisagens extraordinárias, aldeias maravilhosas e pessoas que gostariam de regressar se existissem oportunidades económicas. Isso fez-me compreender que o caminho podia ter uma transcendência muito para além da história do Graal.

O Caminho de Santiago tem uma tradição e uma identidade reconhecidas mundialmente, enquanto o Caminho do Santo Graal ainda está em construção. O que torna esta peregrinação diferente? É preciso acreditar para lhe encontrar sentido?

Alejandro: Fiz o Caminho de Santiago algumas vezes e é uma experiência incrível, sobretudo do ponto de vista social. Partilhas refeições, albergues e conversas com muitos peregrinos. Este é um caminho completamente diferente. Há muitos trechos em que caminhas sozinho…

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