O fabricante chinês CATL (Contemporary Amperex Technology Co. Limited) se consolidou como o maior produtor mundial de baterias para veículos elétricos. Segundo os últimos dados do setor, controla 37,9% do mercado global, muito à frente de seu principal concorrente, BYD, que alcança 17,2%. Esta posição dominante tornou a CATL um parceiro-chave para praticamente todos os grandes fabricantes de automóveis, incluindo Tesla, Volkswagen, BMW, Mercedes-Benz, Ford e Geely.
“Na Europa, pela Europa”: a estratégia de localização
Em setembro, durante o Salão do Automóvel IAA de Munique, a CATL apresentou sua estratégia “In Europe, for Europe”, com a qual pretende adaptar sua produção às necessidades específicas dos clientes europeus e reforçar sua presença industrial no continente. A mensagem é clara: fabricar perto do mercado final para reduzir riscos logísticos, responder às exigências regulatórias e ganhar legitimidade como fornecedor estratégico da transição energética europeia.
Esta estratégia se materializa em uma rede industrial que já conta com duas plantas operativas na Europa e uma terceira em fase de desenvolvimento. A primeira foi inaugurada em 2018 em Erfurt (Alemanha) e a segunda em 2022 em Debrecen (Hungria). A terceira, anunciada para 2024, será localizada em Zaragoza e se desenvolverá como uma joint venture com a Stellantis, com um investimento conjunto de 4,1 bilhões de euros.
O projeto de Zaragoza: investimento recorde e emprego especializado
A futura planta aragonesa, especializada em baterias LFP (lítio-ferrofosfato), ocupará uma superfície equivalente a 100 campos de futebol e está previsto que inicie suas atividades no final de 2026. O projeto se inscreve em um ecossistema industrial mais amplo, uma vez que a Stellantis planeja também montar veículos Leapmotor em suas instalações atuais de Zaragoza, reforçando o papel de Aragão como polo de eletromobilidade.
No entanto, o projeto gerou debate. O Financial Times informou em 27 de setembro que a CATL prevê transferir até 2.000 trabalhadores da China para colocar a planta em funcionamento, o que despertou preocupações em torno da competitividade da indústria europeia de baterias e da possível dependência tecnológica.
Transferência de conhecimento e dependência tecnológica
O jornal britânico ressaltou o risco de que a Europa fique presa em uma relação de dependência tecnológica em relação à China, especialmente se não ocorrer uma transferência efetiva de conhecimento. O artigo citava executivos da Stellantis afirmando que a CATL não considera compartilhar seu “know-how” chave, o que limitaria o aprendizado industrial local.
De Pequim, a resposta não se fez esperar. O Global Times, meio estatal chinês, classificou essas preocupações como fruto da “ansiedade geopolítica” ocidental e defendeu que a colaboração com a CATL representa uma oportunidade de inovação e benefício mútuo para a Europa no desenvolvimento a longo prazo das novas energias.
Um debate com precedentes históricos
A controvérsia não é nova. Desde o início da década de 1980, quando fabricantes ocidentais começaram a investir na China, as autoridades chinesas exigiram acordos de transferência tecnológica no âmbito de joint ventures com parceiros locais. Também foi comum o envio de executivos e técnicos europeus e americanos para colocar em funcionamento plantas industriais no país asiático.
Nesse contexto, alguns analistas europeus questionam se o equilíbrio atual foi invertido: a Europa acolhe grandes investimentos chineses, mas sem as mesmas garantias de transferência de conhecimento que a China exigiu na época.
O precedente americano
O caso europeu é melhor entendido à luz da experiência da CATL nos Estados Unidos. A empresa projetou uma planta de baterias LFP em Michigan junto com a Ford, mas a iniciativa enfrentou forte oposição sindical e política. O projeto foi paralisado em 2023 e não foi mais discutido publicamente.
Naquela época, já se debatia que a planta se limitaria ao montagem de células produzidas na China, incorporando sistemas de gestão de baterias (BMS). No setor, assume-se que o verdadeiro valor tecnológico reside na fabricação das células, enquanto a montagem final é um processo relativamente padronizado.
No início de 2025, os Estados Unidos deram um passo a mais ao catalogar a CATL como “empresa militar chinesa”, uma decisão destinada a proteger sua cadeia de suprimento de veículos elétricos e que, de fato, fecha a porta para futuras joint ventures do grupo chinês em solo americano.
Europa diante de uma decisão estratégica
Com sua expansão europeia, a CATL se coloca no centro de um debate crucial para a política industrial da União Europeia: como atrair investimento estrangeiro estratégico sem comprometer a autonomia tecnológica. A planta de Zaragoza representa uma oportunidade histórica em termos de emprego, investimento e posicionamento industrial, mas também levanta questões sobre o modelo de colaboração, a capacitação do talento local e a construção de uma verdadeira cadeia de valor europeia das baterias.
Para os empresários e tomadores de decisão industriais espanhóis, o desafio será maximizar o efeito trator desses tipos de projetos, integrá-los na rede produtiva local e garantir que a transição energética não se traduza apenas em capacidade de montagem, mas também em conhecimento, inovação e competitividade a longo prazo.










