Entre a história e a lenda, este mosteiro, situado nos pré-Pirinéus de Huesca, a mais de mil metros de altitude, é mais do que um testemunho do passado: é o coração da história aragonesa. Dentro das suas muralhas ecoam os feitos dos primeiros monarcas, as orações dos monges e o eco de um reino em construção.
Situado numa zona privilegiada de Aragão, o mosteiro de San Juan de la Peña é um dos mais emblemáticos de Aragão e um ponto de referência histórico da primeira ordem. O seu papel na consolidação do reino aragonês e a sua importância como necrópole real fazem dele um testemunho privilegiado da evolução da Coroa de Aragão.
Um enclave sagrado e lendário
A história de San Juan de la Peña remonta ao início da Idade Média, quando, segundo a lenda mais enraizada, o cavaleiro Voto encontrou o corpo do eremita Juan de Atarés numa gruta e decidiu seguir o seu exemplo, fundando um mosteiro. A realidade histórica fala-nos da evolução de um primitivo eremitério para se tornar num importante mosteiro beneditino, beneficiado pelos primeiros reis aragoneses e um centro-chave na introdução da reforma cluniacense na Península Ibérica no século XI. A Diretora Geral do Património Cultural do Governo de Aragão, Gloria Pérez, assinala que “San Juan de la Peña é um dos mosteiros e ícones mais importantes, pois alberga uma igreja pré-românica, o panteão dos nobres e um claustro, que são algumas das maioresjóias da arquitetura românica em Aragão”.
“San Juan de la Peña alberga algumas das maiores jóias do românico aragonês”.
Berço do Reino de Aragão
San Juan de la Peña é considerado o berço do Reino de Aragão, pois foi um centro nevrálgico na organização e consolidação do poder político e religioso aragonês. Ramiro I (1035-1063), o primeiro rei de Aragão, reforçou a relação do mosteiro com a monarquia, concedendo-lhe privilégios e assegurando a sua proteção. Os seus descendentes, Sancho Ramírez e Pedro I, continuaram esta ação, fazendo do mosteiro uma referência do monaquismo reformado e um ponto de encontro entre a religião e a política. A própria Gloria Pérez destaca o mosteiro “como o berço e a origem do Reino de Aragão”.

Além disso, acrescenta Pérez, “não há muita gente que o assinale, mas San Juan de la Peña foi um palco fundamental para a introdução do rito romano na Península Ibérica”. O mosteiro foi pioneiro nas mudanças da Igreja espanhola no século XI. Em 1071, sob o impulso do rei Sancho Ramírez, o rito litúrgico moçárabe foi substituído pelo rito romano, de acordo com as diretivas papais. Esta mudança começou em San Juan de la Peña e San Victorián de Sobrarbe, estendendo-se depois ao resto de Aragão e Espanha. Juntamente com a introdução da regra beneditina, este mosteiro foi fundamental para a transformação eclesiástica da península.
“San Juan de la Peña foi uma etapa fundamental para a introdução do rito romano na Península Ibérica”.
Um panteão real

O mosteiro tornou-se também o local de sepultura da primeira dinastia aragonesa. Ramiro I, Sancho Ramírez e Pedro I repousam no panteão real, situado numa gruta por baixo da igreja românica. Esta necrópole, inicialmente escavada na rocha, foi remodelada no século XVIII por ordem de Carlos III, conservando parte dos túmulos originais.
A decisão de enterrar os monarcas neste mosteiro foi tomada não só por razões espirituais, mas também por razões políticas. A ligação dos reis ao mosteiro reforçava a sua legitimidade e assegurava o respeito pela sua memória através de cerimónias litúrgicas e comemorações.
Declínio e renascimento
A partir do século XII, com a expansão do Reino de Aragão e a transferência do centro do poder para Saragoça, San Juan de la Peña perdeu um pouco do seu protagonismo. No entanto, a sua importância simbólica manteve-se. Na época moderna, foi declarado Monumento Natural (1920) e Paisagem Protegida (2007), o que permitiu a sua conservação e valorização como património aragonês. O Diretor-Geral do Património Cultural do Governo de Aragão reconhece os desafios que se colocam à sua manutenção em perfeito estado, “especialmente no caso dos capitéis românicos do claustro”. Assegura também que “o Governo de Aragão está a trabalhar em conjunto com outras administrações para garantir a conservação do mosteiro”.
Atualmente, San Juan de la Peña foi reconhecido como o monumento mais valorizado de Aragão de acordo com o Observatório da Cultura 2024, destacando a sua relevância histórica e cultural. Além disso, estão a ser realizadas grandes obras de renovação no Mosteiro Novo. O Turismo de Aragão é a entidade responsável pela gestão destas intervenções, que incluem a renovação dos sistemas de água potável, rega, balneários e saneamento, com um orçamento de 323.760 euros e um prazo de execução de quatro meses. Foi também adjudicada a obra de adaptação das torres da igreja do Mosteiro Novo, com um investimento de 337.463 euros e um prazo de execução de seis meses. Estas iniciativas, que no seu conjunto ultrapassam os 3 milhões de euros, visam melhorar a conservação do mosteiro e reabrir a sua casa de hóspedes no outono de 2025.
Um legado vivo
Atualmente, San Juan de la Peña continua a ser um destino fundamental para a história e a cultura de Aragão. A sua beleza arquitetónica, na qual coexistem elementos pré-românicos, românicos, góticos e neoclássicos, juntamente com a imponência da sua envolvente natural, fazem dele um ponto de interesse imperdível. Além disso, a sua condição de berço do Reino de Aragão e do panteão real mantém-no como um símbolo da identidade aragonesa.
San Juan de la Peña não é apenas um vestígio do passado, mas um legado vivo que continua a contar a história de Aragão a quem o visita, recordando o seu papel crucial na configuração do reino e a sua influência na Europa medieval.
Rumo ao turismo digital
O Turismo de Aragão pôs a concurso um projeto de 400 000 euros para digitalizar e renovar as áreas de exposição do Mosteiro Novo de San Juan de la Peña. Com um prazo de execução de seis meses, a iniciativa visa implementar soluções tecnológicas avançadas, como aplicações de realidade virtual, avatares interactivos e experiências imersivas, para modernizar a oferta turística e permitir aos visitantes interagir de forma dinâmica com a história e a cultura do mosteiro. Este projeto faz parte de uma estratégia mais ampla de revitalização de San Juan de la Peña, que inclui obras de adaptação em curso e a reabertura da casa de hóspedes em 2025.

Projectos futuros
A própria Gloria Pérez afirma que também se está a trabalhar noutros projectos, como a reabertura do Real Mosteiro de Santa María de Sijena, que o presidente do Governo de Aragão, Jorge Azcón, anunciou há alguns meses e que previa que acontecesse no primeiro trimestre de 2025, após mais de dois anos de encerramento. O governo aragonês investiu mais de dois milhões de euros na renovação e adaptação de várias salas do mosteiro, incluindo a musealização dos antigos dormitórios, onde será exposta uma seleção das 99 obras recuperadas.










