É hora de voltar à rotina, e parece que o calendário nos exige fazê-lo com um entusiasmo renovado. Levaram-nos a acreditar que, para cumprir as tarefas de cada dia, é preciso sentir uma profunda vocação e que, quando encontramos a nossa verdadeira paixão, o trabalho deixa de exigir esforço.
Parece bom. É até inspirador. O problema é que, enquanto buscamos essa iluminação, a vida continua a acontecer.
A realidade da vida adulta responde a parâmetros bem mais pragmáticos: é preciso pagar a hipoteca, levar as crianças à escola, fazer compras, cuidar dos nossos pais, pagar as contas e garantir a estabilidade financeira. Nenhum destes elementos costuma aparecer nas fotografias inspiradoras sobre «viver da sua paixão».
Reconhecer isto não implica renunciar ao prazer pessoal, mas delimitar dois âmbitos que frequentemente confundimos: o cultivo das nossas inquietações individuais e a estrutura económica que sustenta a nossa vida.
Podemos descobrir que adoramos tocar guitarra. Podemos aprender fotografia, estudar um idioma, escrever ou retomar um passatempo que abandonámos há anos. E podemos fazê-lo sem necessidade de criar um negócio à sua volta, transformá-lo numa marca pessoal ou anunciar que encontrámos «o nosso propósito». Gostarmos de algo e isso enriquecer-nos é motivo mais do que suficiente para lhe dar espaço, sem precisar de atribuir a esse passatempo ou paixão a responsabilidade de nos sustentar.
O problema surge quando transferimos essa mesma expectativa para o âmbito profissional e assumimos que trabalhar só faz sentido se responder a um impulso vocacional. E é neste ponto que convém rever um preconceito profundamente enraizado para admitir uma verdade fundamental: trabalhar por dinheiro é um critério tão legítimo, nobre e suficiente quanto fazê-lo por vocação.
O dinheiro é um motivo claro, quantificável e respeitável. Permite garantir a nossa independência, cuidar da família e financiar, precisamente, aquilo que nos satisfaz fora do horário de trabalho. Elevar a vocação ao único critério válido de realização é desvalorizar a função essencial do trabalho como instrumento de sustento.
Complicámos demasiado o conceito de motivação ao exigir que a jornada corresponda a um entusiasmo contínuo. Confundimos a motivação com o estado de espírito. Estar motivado não é sentir entusiasmo antes de agir; é ter uma razão de peso para não ficar parado.
Sustentar a sua vida ou cuidar dos seus são razões mais do que suficientes. É possível compreender a necessidade de cumprir um compromisso e não sentir a menor vontade de o fazer. Esperar sentir essa sensação plena e satisfatória antes de agir é o caminho mais rápido para nunca começar.
Na prática, a motivação real não funciona como um impulso anterior à ação, mas como o resultado direto de começar a agir. A continuidade diária não depende de estar permanentemente motivado, mas de recordar por que fazemos as coisas. É isso que sustenta o esforço quando a paixão não é suficiente ou quando, simplesmente, temos um dia em que não nos apetece fazer nada.
A vida adulta exige aceitar uma premissa tão simples quanto incómoda: há coisas que devemos fazer, mesmo que não nos apeteça.
Talvez a questão para enfrentar este novo quadrimestre não esteja na procura de uma ocupação idílica ou em estarmos extremamente satisfeitos nos nossos cargos, mas na capacidade de usar o trabalho como a ferramenta que financia a vida que desejamos construir. Todos podemos cultivar uma paixão e também uma hipoteca. Aprender a fazer coexistir ambas as dimensões sem culpa nem ficção não representa qualquer renúncia; constitui, simplesmente, um exercício de maturidade.










