Peru e China: uma relação econômica que vai muito além do comércio

A presença econômica da China no Peru se estendeu progressivamente por diferentes setores da economia. O que começou fundamentalmente como uma relação comercial baseada na exportação peruana de matérias-primas se transformou em uma rede que inclui investimentos empresariais, explorações mineradoras, distribuição elétrica, infraestrutura e, desde o final de 2024, uma conexão portuária direta com a Ásia através de Chancay.

A China é atualmente o primeiro parceiro comercial do Peru. O Ministério de Comércio Exterior e Turismo peruano calcula que representa cerca de 35% do comércio exterior do país. Além disso, em 2025, concentrou 36,2% de todas as exportações peruanas.

A relação também conta com um marco institucional consolidado. Ambos os países mantêm um Tratado de Livre Comércio desde 2010 e, em novembro de 2024, assinaram um protocolo para modernizá-lo. O Peru completou em julho de 2026 seus procedimentos internos para sua ratificação, incorporando questões como economia digital, cooperação aduaneira, serviços e investimento.

O comércio, ponto de partida

As matérias-primas constituem uma parte fundamental das exportações peruanas para a China. Cobre, ouro, chumbo e farinha de peixe figuram entre os produtos com maior presença nas trocas.

Nos dois primeiros meses de 2026, a China recebeu 39% de todas as exportações peruanas, com um valor de 6.936 milhões de dólares. O crescimento foi impulsionado precisamente pelos maiores envios de minerais e produtos pesqueiros.

A relação comercial também funciona na direção oposta. A China fornece ao mercado peruano veículos, máquinas, equipamentos tecnológicos, produtos industriais, aço, produtos químicos e numerosos bens de consumo.

Esse intercâmbio passou por uma transformação notável nas últimas duas décadas. Segundo o Observatório Nacional de Prospectiva do Peru, a China representava apenas 9,5% das exportações peruanas em 2006. Em 2024, já absorvia aproximadamente um terço.

As empresas chinesas entram na mineração peruana

O próximo passo foi o investimento direto. A mineração constitui um dos principais exemplos.

Empresas e consórcios chineses participam de algumas das grandes explorações mineradoras do país. Entre elas estão Las Bambas, uma das principais minas de cobre do Peru, operada pela MMG; Toromocho, vinculada à Chinalco; e as operações de Shougang Hierro Peru em Marcona.

A presença responde em boa medida à complementariedade existente entre as duas economias. O Peru dispõe de importantes reservas de minerais, enquanto a indústria chinesa necessita de grandes quantidades de matérias-primas para setores como construção, automotivo, eletrônica, redes elétricas e energias renováveis.

O resultado é uma relação na qual a China não atua apenas como compradora de minerais peruanos. Suas empresas também participam diretamente de sua produção.

Das minas à eletricidade

Os investimentos se estenderam posteriormente ao setor energético.

Grupos chineses adquiriram nos últimos anos ativos relevantes em geração e distribuição elétrica. Entre as operações mais significativas estão Luz del Sur, adquirida pela China Yangtze Power, vinculada à China Three Gorges, e os antigos ativos peruanos de distribuição da Enel, adquiridos pela China Southern Power Grid.

A essas operações somam-se investimentos em geração hidrelétrica e outros projetos energéticos.

Chancay incorpora a logística

O Porto de Chancay representa uma nova etapa.

Inaugurado em novembro de 2024 e situado aproximadamente 80 quilômetros ao norte de Lima, o porto é controlado em 60% pela COSCO Shipping Ports, pertencente ao grupo estatal China COSCO Shipping.

Sua função principal é facilitar uma conexão marítima direta entre o Peru e a Ásia por meio de grandes porta-contêineres. A redução de escalas permite encurtar determinados trajetos e facilita as exportações peruanas para os mercados asiáticos.

Chancay foi concebido também com uma dimensão regional. O Peru pretende que possa concentrar mercadorias provenientes de outros países sul-americanos para posteriormente transportá-las para a Ásia. O Ministério de Relações Exteriores peruano o apresenta expressamente como um eixo para melhorar a conectividade entre ambos os continentes e como plataforma regional para empresas interessadas em operar a partir do Peru.

Tecnologia, telecomunicações e serviços

A presença empresarial chinesa se estende igualmente a outros âmbitos.

Companhias como Huawei e ZTE operam há anos no mercado peruano de telecomunicações e tecnologia, fornecendo equipamentos e soluções para operadores, empresas e instituições.

Também há presença em serviços financeiros e outras atividades relacionadas ao crescente volume de comércio e investimento entre os dois países.

O número de empresas permite ter uma ideia da diversificação alcançada. O Ministério de Relações Exteriores do Peru indicava em março de 2026 que mais de 200 companhias chinesas haviam realizado investimentos no país, especialmente em mineração, energia, infraestrutura e recursos minerais.

O Peru busca também ampliar esses investimentos para novas áreas. As autoridades apresentaram a investidores chineses oportunidades relacionadas a transporte, saneamento, agricultura e irrigação para o período de 2026 a 2028.

Uma relação construída ao longo de décadas

As relações diplomáticas entre o Peru e a República Popular da China foram estabelecidas em 1971, mas a integração econômica acelerou-se especialmente durante as primeiras décadas do século XXI.

O crescimento da economia chinesa aumentou a demanda por minerais e outras matérias-primas latino-americanas. O Peru, como um dos principais produtores mineradores do continente e país situado na costa do Pacífico, aumentou progressivamente seus intercâmbios com o mercado asiático.

O TLC de 2010 reforçou essa tendência. Desde então, novas investimentos empresariais e aquisições de ativos têm ocorrido, enquanto as exportações peruanas para a China aumentaram consideravelmente.

A atualização do acordo comercial, atualmente em processo de entrada em vigor, incorpora uma nova geração de matérias relacionadas ao comércio digital, investimento e cooperação econômica.

Uma presença cada vez mais diversificada

A relação econômica entre ambos os países pode ser observada hoje em diferentes pontos da cadeia produtiva.

A China compra minerais e produtos agrícolas peruanos; companhias chinesas participam de explorações mineradoras e ativos energéticos; fabricantes tecnológicos fornecem equipamentos e serviços; e a COSCO controla maioritariamente um porto projetado para conectar diretamente o Pacífico sul-americano com a Ásia.

O Peru, por sua vez, continua promovendo o comércio e a chegada de novos investimentos chineses, ao mesmo tempo em que desenvolve relações econômicas com os Estados Unidos, a União Europeia e outros mercados asiáticos.

Os dados comerciais mostram a dimensão que esse vínculo alcançou. A China passou de representar menos de 10% das exportações peruanas em 2006 para superar um terço atualmente. Em 2025, voltou a ser o principal destino dos

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