Resenha: Juventude em Viena, de Arthur Schnitzler (Editorial Acantilado)
No coração do verão, quando os dias se alongam e apetece uma leitura profunda, mas fluida, Editorial Acantilado nos presenteia com uma daquelas obras que funcionam como uma máquina do tempo: Juventude em Viena de Arthur Schnitzler.
Publicado na mesma cuidadosa coleção El Acantilado, este volume nos oferece uma edição elegante, com a habitual qualidade tipográfica e de tradução que caracteriza a editora. Trata-se das memórias de juventude do grande escritor austríaco, um texto imprescindível para compreender não apenas a Schnitzler, mas também o ambiente que deu origem a uma das épocas culturais mais fascinantes da Europa: a Viena do fim do século.
Arthur Schnitzler, o cronista da alma vienense
Arthur Schnitzler (Viena, 1862-1931) foi médico de formação e escritor de vocação. Membro destacado do Modernismo vienense, é um dos autores que melhor captaram a atmosfera crepuscular do Império Austro-Húngaro. Com uma prosa precisa, elegante e psicológica, retratou como poucos a burguesia judia vienense, seus desejos reprimidos, suas hipocrisias sociais e sua decadência elegante. Amigo e “duplo literário” de Sigmund Freud, foi pioneiro no uso do monólogo interior e na análise profunda da sexualidade e da psicologia humana. Obras como A ronda, O tenente Gustl ou Traumnovelle (base do filme Eyes Wide Shut de Kubrick) o tornaram um clássico indiscutível.
Juventude em Viena: um retrato lúcido e nostálgico
Escritas entre 1915 e 1920, mas publicadas postumamente em 1968, estas memórias cobrem a vida de Schnitzler desde sua infância até 1889, momento em que decide dedicar-se plenamente à literatura. Não é uma autobiografia convencional nem sensacionalista: é um retrato geracional e social escrito com distância crítica, fino humor e ironia.
O leitor acompanha o jovem Schnitzler em sua educação burguesa, seus anos como estudante de medicina, suas primeiras aventuras amorosas, suas amizades intelectuais e suas viagens a Berlim e Londres. Através de seu olhar, vemos uma Viena brilhante, culta e hedonista, mas também um mundo que já começava a se desintegrar: o ocaso do Império Habsburgo, as tensões sociais, o antissemitismo latente e a crise de valores de uma burguesia que vivia de costas para seu próprio declínio.
Schnitzler combina a memória pessoal com a análise social de forma magistral. O resultado é um texto vivo, repleto de observações agudas sobre a educação, a família, o amor, a literatura e a morte, temas que depois desenvolveria magistralmente em sua obra de ficção.
Uma leitura para o verão
Juventude em Viena é ideal para ler nestas semanas de calor. Seu ritmo pausado, sua inteligência e sua capacidade de nos transportar a outra época a tornam uma leitura viciante e enriquecedora, perfeita para quem busca algo mais que mera evasão.
Para os leitores de GoAragón
Aos leitores de GoAragón, interessados na cultura profunda e nas grandes tradições europeias, este livro será especialmente valioso. Schnitzler nos mostra, com lucidez e sem nostalgia barata, como uma sociedade culta e refinada pode entrar em crise. Em um tempo como o nosso, marcado também por mudanças profundas e crises de identidade, o olhar sereno e crítico do autor vienense oferece chaves para entender melhor o nosso próprio presente.
Além disso, ler Schnitzler é conectar-se com uma das cumbres da cultura centro-europeia, essa mesma tradição humanista que tanto enriqueceu Aragão ao longo de sua história.
Altamente recomendado. Um livro inteligente, elegante e necessário.










