Enrique Valero, CEO da Abadía Retuerta, será um dos oradores de destaque dos Encontros de Excelência e Inspiração, que se realizam no âmbito do Festival Internacional da Garnacha – Saragoça, Capital Mundial da Garnacha. À frente de um dos projetos enoturísticos mais reconhecidos de Espanha, Valero transformou a histórica abadia de Valladolid numa referência internacional onde vinho, gastronomia, património, arte, bem-estar e sustentabilidade coexistem numa proposta única. Nesta entrevista, partilha a sua visão sobre a excelência, o luxo contemporâneo, a inovação, a sustentabilidade e o papel que as empresas devem desempenhar na regeneração dos territórios onde operam.
«Costumo apresentar-me como um gestor de felicidade»
Costuma definir-se mais como um gestor de felicidade do que como um CEO. Porquê?
Porque o meu trabalho consiste em ligar a experiência do colaborador à experiência de quem nos visita. Não me considero um CEO ao uso. O que procuro é gerir um património histórico e natural de forma responsável para que quem vem a Abadía Retuerta possa desfrutar do vinho, da gastronomia, do bem-estar, da arte ou da natureza a partir de uma experiência autêntica.
Quando cheguei, há já dezassete anos, percebi que tinha de compreender duas coisas: o lugar e as pessoas que queríamos atrair. O lugar inclui a paisagem, mas também o que hoje chamamos de paisagem cultural, ou seja, a intervenção humana nesse território. E, por outro lado, devíamos entender que tipo de visitante queríamos receber.

Hoje, cerca de 60 % dos nossos hóspedes são internacionais. Vêm pelo vinho, pela gastronomia, pela história ou pela cultura, mas acima de tudo querem viver o território, não que lhes contem sobre ele.
«Passámos do storytelling para o story living»
Como é que a forma de entender a experiência turística evoluiu?
Acho que passámos do storytelling para o story doing e agora para o story living. O visitante já não quer que lhe expliquem um território; quer senti-lo.
Na Abadía Retuerta procuramos que o tempo pare. Costumo dizer que um dia na propriedade deve regenerar sete dias de vida. Queremos que as pessoas se conectem com a natureza, com o rio Douro, com os pássaros, com as pedras, com a história e com a cultura deste lugar.
Na verdade, costumo dizer que o primeiro funcionário da Abadía Retuerta foi o Douro. Se não compreendermos isso, estamos perdidos. Tudo o que somos nasce deste território.
«O luxo atual consiste em viver algo autêntico»
A Abadía Retuerta tornou-se uma referência no turismo de excelência. O que significa para si o luxo?
O luxo atual tem muito a ver com o tempo, com a autenticidade e com a capacidade de emocionar. Já não se trata de acumular experiências ou de riscar locais de uma lista. As pessoas querem compreender, sentir e conectar-se.
É por isso que costumo dizer uma frase que resume bastante bem a nossa filosofia: menos fermentações e mais emoções.
O visitante quer compreender por que razão uma ordem monástica chegou aqui há nove séculos, por que razão esta paisagem é como é, que papel desempenha o rio ou o que torna os nossos vinhos únicos. O que procura é uma experiência com significado.
«A excelência consiste em cumprir o que se promete»
Como se constrói uma experiência excelente?
A excelência consiste em que a expectativa e a realidade coincidam. Não se trata de ser caro ou barato. Trata-se de oferecer algo coerente, autêntico e memorável.
Costumo dizer que deveria haver um pequeno momento «uau» a cada poucos minutos. Pode ser uma história, uma vista, um vinho, um detalhe do serviço ou uma descoberta relacionada com o património.
No final, o importante é que o visitante parta transformado num verdadeiro embaixador do projeto.
«A tradição é a inovação que provou ser bem-sucedida»
A Abadía Retuerta combina nove séculos de história com uma aposta permanente na inovação. Como se consegue esse equilíbrio?
Para mim, inovar não significa mudar só por mudar. Inovar é interpretar o que existe para continuar a gerar valor.
Pode-se inovar na gestão, na comunicação, nas experiências, na recuperação da paisagem ou na forma de interagir com o visitante.
Há uma frase que ouvi há anos e que utilizo muito: a tradição é a inovação que provou ser bem-sucedida.
Não podemos ficar a olhar para o que os monges fizeram ou para o que os nossos antepassados fizeram. Temos de compreender esse legado e adaptá-lo para que continue a ser relevante daqui a cinquenta ou cem anos.
«A sustentabilidade começa por gerar valor para as pessoas»
A sustentabilidade é um dos eixos do seu modelo de gestão. Como a entende?
A sustentabilidade tem três dimensões inseparáveis: a económica, a social e a ambiental.
A primeira é a económica. Se o negócio não funcionar, nada mais se pode sustentar. Graças à viabilidade do projeto, hoje vivem dele 155 famílias.
Quando cheguei em 2009, éramos 47 funcionários. Hoje somos 155 e o impacto económico estende-se muito além da nossa propriedade. Trabalhamos com fornecedores locais, agricultores, artesãos, empresas de serviços e produtores da região.
Além disso, medimos o nosso impacto social em conjunto com a Fundação SERES para saber qual é a pegada real que deixamos no território.
«Não fazemos greenwashing; procuramos regenerar»
Como é que essa filosofia se traduz em ações concretas?
A chave é compreender que somos guardiões de um legado. Não queremos extrair mais do que o território pode oferecer. Queremos regenerar.
Poderíamos produzir mais uvas ou construir um hotel muito maior, mas optámos por outro modelo.
Acabámos de reflorestar 90 hectares. Essa decisão não gera rentabilidade imediata, mas contribui para a biodiversidade, melhora a gestão da água, ajuda a combater as alterações climáticas e enriquece a experiência de quem nos visita.
Para nós, a sustentabilidade não é uma questão de comunicação; é uma forma de gerir.
«Recuperar uma queijaria ou uma variedade de tomate também é sustentabilidade»
Estão também a impulsionar projetos muito ligados à recuperação do património agrícola e artesanal.
Sim. Estamos a trabalhar para recuperar atividades, produtos e conhecimentos que fazem parte da identidade do território.
Por exemplo, estamos a fechar um acordo para reativar uma queijaria situada em frente à nossa propriedade que não tinha sucessão geracional. O objetivo não é entrar no negócio do queijo por si só, mas evitar que uma atividade histórica da zona desapareça e ajudar a projetá-la para o futuro
Também recuperámos a antiga horta monástica e estamos a cultivar mais de 140 variedades tradicionais de tomate que praticamente tinham desaparecido devido a critérios de produtividade, embora conservem uma qualidade extraordinária.
A isto junta-se a nossa aposta no artesanato local. A louça que utilizamos nos nossos restaurantes é produzida por artesãos de Arrabal de Portillo.
Tudo faz parte de uma mesma filosofia: valorizar o território e gerar oportunidades para quem nele vive.
«Abadía Retuerta é um projeto vivo»
Que projetos de futuro o entusiasmam especialmente?
Estamos a desenvolver iniciativas relacionadas com a arte, residências artísticas, artesanato, vinhos solidários e novas experiências para os nossos visitantes.
Continuamos também a investigar novas expressões dos nossos vinhos para nos adaptarmos às tendências atuais, sempre com elegância e respeito pelo território.
A Abadía Retuerta é um projeto vivo. Quanto mais nos aprofundamos nele, mais possibilidades surgem.
«Nunca nos devemos contentar»
Que conselho daria a quem trabalha no setor do turismo?
Que nunca se contentem.
Não se deve olhar para um território apenas pelo que é, mas pelo que pode vir a ser. É preciso ouvir, observar e compreender profundamente o lugar onde se trabalha.
Quando se é capaz de estabelecer uma ligação com a essência de um território e de a partilhar de forma autêntica com quem nos visita, surgem oportunidades extraordinárias.
E se tivesse de resumir a nossa filosofia numa ideia, seria muito simples: devemos deixar o território melhor do que o encontrámos, para que quem vier depois possa continuar a desfrutá-lo.

Como avalia iniciativas como os Encontros de Excelência e Inspiração do Festival Internacional da Garnacha?
Avalio-as muito positivamente porque permitem partilhar experiências, conhecimentos e diferentes formas de compreender o território. Aprende-se sempre quando se reúnem profissionais que trabalham com paixão nos seus projetos e que procuram gerar valor a partir da autenticidade.
Além disso, ajudam a valorizar recursos tão importantes como a Garnacha, que faz parte da identidade de muitos territórios. São espaços que inspiram, geram novas ideias e contribuem para construir um turismo e uma gastronomia cada vez mais excelentes e sustentáveis.












