A empresa espanhola Iberian Defence Propulsion Hub (IDPH) desenvolve um processo para obter nitrocelulose de grau militar a partir de polpa de eucalipto europeu. A tecnologia encontra-se ainda em fase experimental, entre os níveis de maturidade TRL 3 e TRL 4, e está a ser submetida a testes através de um contrato de investigação e desenvolvimento com o Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC).
O projeto procura substituir parcialmente o línter de algodão tradicionalmente utilizado para fabricar nitrocelulose, um componente necessário para produzir pólvora e munições. Mais de 70% dessa fibra curta de algodão provém de importações, estando a China entre os principais fornecedores, segundo os dados recolhidos pela Infodefensa. A alternativa proposta pela IDPH aproveita a disponibilidade de eucalipto no norte de Espanha e a capacidade da indústria espanhola de celulose.
A empresa, constituída em 2026 e sediada em Madrid, pretende alcançar um demonstrador pré-industrial de nível TRL 5. Esta etapa deverá permitir avaliar continuamente o comportamento do material e a viabilidade do processo antes de avançar para a sua qualificação junto de fabricantes europeus e para uma eventual produção industrial.
Uma fábrica projetada em Castela e Leão
A IDPH prevê construir em Castela e Leão uma fábrica com capacidade para produzir cerca de 5.000 toneladas anuais de nitrocelulose, embora a localização ainda não esteja decidida. A empresa prevê concluir, em 2027, um acordo sobre os terrenos com a Junta de Castela e Leão e lançar posteriormente uma ronda de financiamento, com a qual espera captar fundos públicos e da NATO.
A empresa também mantém uma aliança com a espanhola Tecnesis para incorporar outra linha de produção na fábrica de carregamento de projéteis que esta última prevê abrir em Valderas, na província de Leão. A IDPH aponta para 2028 o arranque dessas linhas, um calendário que depende do avanço tecnológico e dos projetos industriais anunciados.
As estimativas recolhidas pela Infodefensa situam as necessidades europeias de nitrocelulose em cerca de 20.000 toneladas por ano, face a uma capacidade continental entre 4.500 e 10.000 toneladas. A diferença estimada oscilaria, assim, entre 10.000 e 15.000 toneladas anuais, num momento em que a União Europeia pretende aumentar a sua capacidade de produção para dois milhões de projéteis por ano.
Um consórcio europeu pendente de avaliação
A IDPH lidera ainda a Europulp, um consórcio formado por seis parceiros de cinco Estados-Membros da União Europeia. A iniciativa reúne o CSIC, centros de investigação de Espanha e da Alemanha e pequenas e médias empresas tecnológicas de outros três países. A sua proposta foi apresentada em setembro à convocatória de 2026 do Fundo Europeu de Defesa e deverá ser avaliada pela Comissão Europeia, cuja decisão está prevista para 2027.
O objetivo da Europulp é levar o processo do laboratório até um demonstrador contínuo de nível TRL 5. Álvaro Marín, fundador da IDPH, afirma que a empresa já obteve um resultado químico favorável e que os resultados foram certificados em conformidade com as normas da NATO. A empresa mantém contactos com os ministérios da Indústria e da Defesa e afirma ter recebido interesse de empresas do setor e de vários países europeus, incluindo a Ucrânia.
A IDPH faz parte do grupo CapTech de Mísseis e Munições da Agência Europeia de Defesa. Na sua primeira participação como membro, realizada nos dias 29 e 30 de setembro, em Tomar, Portugal, apresentou os seus trabalhos para obter nitrocelulose a partir de polpa de madeira perante representantes de governos, da indústria e de centros europeus de investigação.










