A Airbus dá um novo passo em sua relação com a aviação japonesa. O fabricante europeu e a All Nippon Airways (ANA) assinaram um acordo abrangente para formar a próxima geração de pilotos do grupo japonês e de suas companhias aéreas associadas, uma operação que amplia uma colaboração entre ambas as empresas que já dura quase quatro décadas.
O acordo chega em um momento em que a indústria aérea enfrenta um de seus grandes desafios para os próximos anos: dispor de profissionais suficientes para atender ao crescimento previsto do tráfego aéreo. Segundo as estimativas da Airbus Global Services, o setor precisará de 633.000 novos pilotos em todo o mundo nos próximos vinte anos. Desses, 104.000 corresponderão somente à região da Ásia-Pacífico.
O programa acordado com a ANA será de formação ab initio, ou seja, permitirá incorporar aspirantes sem experiência prévia de voo e acompanhá-los durante as diferentes etapas de preparação até a obtenção de sua licença de piloto.
A primeira turma será composta por 19 cadetes e começará sua formação no final de 2026. Embora o acordo tenha como objetivo reforçar a base de pilotos do mercado japonês, a preparação será realizada na Europa, especificamente na Sevenair Academy de Ponte de Sor, em Portugal.
Os alunos seguirão desde o início um programa integrado na rede de formação da Airbus, com um currículo comum baseado nos conceitos, metodologias e ferramentas de aprendizado utilizadas pelo fabricante europeu.
Takeshi Tsuchida, vice-presidente executivo de Operações de Voo da ANA, destacou que o programa incorpora os últimos avanços em segurança e está alinhado com o modelo de Formação e Avaliação Baseada em Competências (CBTA) desenvolvido pela Airbus. O objetivo é preparar os futuros pilotos para atuar em ambientes operacionais complexos e gerenciar as operações de voo com os padrões exigidos pela companhia.
A Airbus ganha terreno em um mercado estratégico
Além da formação dos novos profissionais, o acordo é interessante por ocorrer no Japão, um mercado onde a Boeing manteve historicamente uma posição especialmente sólida e onde a Airbus vem aumentando sua presença nos últimos anos.
A evolução pode ser observada também nas decisões de frota das principais companhias aéreas japonesas, embora a competição esteja longe de se definir exclusivamente por um dos dois fabricantes.
A Japan Airlines (JAL), por exemplo, anunciou em 2024 um importante plano de renovação e crescimento de sua frota que contempla aviões de ambas as companhias. A aérea decidiu incorporar 21 Airbus A350-900 e 11 A321neo, mas também dez Boeing 787-9. Para suas operações domésticas, mantém ainda o plano de introdução de 21 Boeing 737-8.
A aposta na Airbus é, portanto, crescente, mas convive com uma presença ainda muito significativa do fabricante americano.
Também no campo da formação, os laços estão se estreitando. A JAL se tornou em 2024 o primeiro operador mundial do A350 a contratar o Virtual Procedure Trainer da Airbus, uma ferramenta digital destinada a preparar os pilotos para procedimentos operacionais e situações de emergência.
O novo acordo com a ANA agora expande essa presença do fabricante europeu além do fornecimento de aeronaves. A Airbus entra diretamente em um dos processos estratégicos de uma companhia aérea: a formação de seus futuros pilotos.
A falta de pilotos, um desafio global
A iniciativa responde, ao mesmo tempo, a um problema que afeta toda a aviação comercial. O crescimento previsto do tráfego aéreo, as aposentadorias de profissionais e a expansão das frotas estão aumentando as necessidades de contratação e formação.
A Ásia-Pacífico aparece como um dos principais focos dessa demanda. Os 104.000 novos pilotos que a Airbus estima necessários na região durante as próximas duas décadas representam aproximadamente um sexto dos 633.000 que o fabricante calcula que a indústria mundial exigirá.
Para a Airbus, participar desde as primeiras etapas na formação desses profissionais significa ampliar sua atividade de serviços e reforçar a relação com as companhias aéreas além da venda de aeronaves. Para a ANA, o acordo permite acessar um programa internacional de formação padronizado em um momento em que garantir uma base suficiente de pilotos se tornou uma questão estratégica.
A primeira turma de 19 alunos que começará sua preparação em Portugal ainda será reduzida, mas o acordo reflete uma transformação mais ampla do mercado aeronáutico: a competição entre fabricantes já não se joga apenas nos pedidos de novas aeronaves. Formação, serviços, tecnologia e capacidade de acompanhar as companhias aéreas durante todo o ciclo de operação fazem cada vez mais parte da mesma batalha.










