As empresas investem há décadas em maquinaria, em sistemas informáticos, em escritórios bem desenhados. A cada poucos anos, renova-se o parque tecnológico, atualiza-se o software, redesenha-se o espaço de trabalho para ganhar em ergonomia e produtividade. O que raramente entra nesse orçamento, e quase nunca de forma sistemática, é o órgão que realmente sustenta toda a organização: o cérebro das pessoas que decidem, negociam e executam.
Marta Romo coloca o dedo na ferida em Treine seu cérebro: o cérebro não se desgasta sem remédio com a idade. Graças à neuroplasticidade, continua gerando neurônios e conexões novas durante toda a vida, também aos 50, aos 60 ou aos 70 anos. Se se deteriora, a causa quase nunca é o simples passar do tempo, mas sim o uso que fazemos dele no dia a dia. Dormir mal, encadear reuniões sem pausa ou viver atento a notificações tem um custo mensurável na capacidade de pensar com clareza — e esse custo não aparece em nenhum relatório de resultados, embora condicione todos os demais.
No tecido empresarial espanhol e latino-americano, onde tanto peso tem a experiência acumulada de executivos e gerentes intermediários, essa ideia deixa de ser uma curiosidade de divulgação científica para se tornar um assunto de gestão. Um cérebro submetido a estresse sustentado, com déficit de sono e bombardeado por interrupções digitais constantes, perde agilidade para detectar padrões complexos, para gerar alternativas fora do óbvio e para manter a distância emocional necessária quando uma negociação se complica ou um projeto se desvia. Não é um problema que se restrinja à esfera pessoal: se traduz em decisões mais lentas ou mais erráticas, em menos capacidade de inovar e, com o tempo, em um clima de equipe que se ressente sem que ninguém saiba apontar exatamente por que.
O livro organiza boa parte de suas recomendações em torno do que Romo chama de Agenda Arco-íris, um esquema de sete elementos que se sustentam entre si: descanso de qualidade, capacidade de concentração sustentada, momentos de silêncio sem estímulos externos, jogo, atividade física, vínculos sociais significativos e uma gestão emocional que não dependa de apagar incêndios constantemente. Nenhum desses elementos é uma novidade em si — todos já ouvimos falar da importância de dormir bem ou de fazer exercício. O que Romo acrescenta é a insistência de que funcionam como um sistema, não como uma lista de tarefas soltas: de pouco adianta dormir oito horas se o resto do dia se vive em modo alerta permanente, assim como de pouco adianta praticar esporte se nunca há um momento de silêncio real para que a cabeça processe o que acumulou.
Esse último ponto — o silêncio, o tempo sem estímulos — costuma ser o que mais choca em um ambiente executivo acostumado a medir valor em horas ocupadas. Romo defende justamente o contrário: os momentos de aparente inatividade são quando o cérebro consolida informações complexas e conecta ideias que a atividade constante não permite processar. Não é tempo perdido; é onde se elabora boa parte do que depois se apresenta como intuição ou bom senso.
Há ainda um argumento específico para o contexto ibero-americano, onde o talento sênior continua sendo um ativo central devido à sua experiência acumulada. Manter a agudeza mental após os 50 anos depende, segundo o que expõe Romo, muito menos da genética do que costumamos supor, e muito mais desses hábitos mantidos ao longo do tempo.
No final, a ideia fundamental é simples de enunciar e bastante mais difícil de aplicar com constância: proteger o cérebro não é um capricho de bem-estar corporativo que se resume a um workshop pontual. É, de forma bastante literal, a maneira de continuar tomando boas decisões quando mais é necessário.










